Quatro pesquisadores da UFMT desembarcaram em Colônia, na Alemanha, para apresentar descobertas que conectam agrotóxicos a doenças neurodegenerativas — e voltaram com financiamento internacional garantido para os próximos passos.
O convite para a NeuroFly 2026 não foi por acaso: o laboratório de Anderson Oliveira vem construindo, há anos, uma ponte entre a toxicologia de pesticidas e modelos genéticos de Parkinson e epilepsia usando Drosophila melanogaster.
O que três estudantes levaram para a maior vitrine europeia da neurobiologia
Maria Elisa Fonseca testou cafeína como escudo neuronal contra a rotenona, inseticida que mimetiza Parkinson nas moscas. O composto reduziu marcadores de estresse oxidativo e neuroinflamação nas regiões cefálica e torácica — um sinal de que vias metabólicas acessíveis podem modular a progressão da doença.
Brenda Daiany Neves expôs moscas ao Diquat, herbicida amplamente usado no Brasil, e mapeou alterações comportamentais e metabólicas decorrentes da exposição contínua. O trabalho desenha um perfil de toxicidade crônica que ainda falta na literatura regulatória.
Enzo Vinnicius Santana, por sua vez, submeteu moscas epilépticas a um protocolo de exercício forçado no TreadWheel. A atividade motora funcionou como modulador de crises e melhorou a sobrevivência metabólica — evidência de que intervenções não farmacológicas merecem espaço no desenho terapêutico.
Bolsa de viagem e mobilização coletiva: como a ciência brasileira se financia
Os três receberam o Travel Fellowship da organização do evento — reembolso integral das taxas de inscrição, concedido apenas a trabalhos de destaque. Ainda assim, passagens e hospedagem exigiram uma engenharia financeira caseira:
- Editais da PROPG, PROPESQ e PROEG da UFMT
- Rifas organizadas pelo próprio grupo
- Campanha de arrecadação nas redes sociais
O cenário expõe a contradição: excelência reconhecida lá fora, improviso para chegar lá.
O retorno não foi só acadêmico — foi estratégico
Maria Elisa resume: “Conversar com quem trabalha nos mesmos temas abriu perspectivas que não tínhamos pensado”. Brenda classifica a experiência como “surreal” e diz ter descoberto metodologias inéditas. Enzo destaca a responsabilidade de representar a ciência brasileira em solo europeu.
Para Anderson Oliveira, o ganho maior é a autonomia dos alunos: “Ver a maturidade deles respondendo a pesquisadores estrangeiros e caminhando com as próprias pernas é o que todo orientador busca”.
Próxima parada: Portugal 2028 — e a busca por parcerias que sustentem a linha
O laboratório já iniciou o planejamento para a próxima edição da NeuroFly, marcada para Portugal daqui a dois anos. A meta declarada: levar mais resultados consolidados e transformar a visibilidade conquistada em investimentos e colaborações de longo prazo.
O pró-reitor de Pesquisa, Bruno Araújo, reforça que a UFMT mantém editais contínuos de apoio a eventos nacionais e internacionais — para estudantes de IC, docentes e técnicos. A estrutura existe; o desafio é escalar.
O que observar daqui para frente
A pesquisa com Drosophila em Mato Grosso ganhou endereço no mapa global. A combinação — modelos genéticos baratos, pesticidas relevantes para o agronegócio brasileiro e alunos com autonomia comprovada — cria um ativo raro: ciência de ponta com aplicação direta em saúde pública e regulação ambiental. Quem financia inovação no Brasil deveria prestar atenção: o próximo artigo pode sair de um laboratório que já provou saber entregar resultados e formar gente.
