O Grupo Mateus, terceira maior rede de supermercados do país, estreou no ranking Kantar BrandZ 2026 com valor de marca de R$ 1,75 bilhão. O feito ocorre logo após a empresa fechar 28 lojas e cortar 6,6 mil postos de trabalho em seis estados. Como uma varejista que encolheu a operação consegue subir no pódio das marcas mais valiosas?
O número que explica a virada
A varejista maranhense aparece na 45ª posição geral e na 6ª colocação no segmento de varejo, à frente de nomes como Vivara. No recorte restrito a supermercados e atacarejo, o Mateus salta para o 2º lugar, atrás apenas do Assaí. A avaliação de US$ 342 milhões reflete a força da marca junto ao consumidor, medida por pesquisas que cruzam relevância, diferenciação e lembrança na hora da compra.
Reestruturação brutal nos bastidores
Entre 2025 e o primeiro trimestre de 2026, a companhia encerrou todas as 28 unidades da bandeira EletroMateus — focada em móveis e eletrodomésticos — e reduziu o quadro funcional em 6,6 mil pessoas. Os cortes concentraram-se no Maranhão, Pará, Piauí, Ceará, Sergipe e Bahia.
A estratégia marcou a transição de um modelo de expansão territorial agressiva para um foco em rentabilidade e maturação das lojas atuais. O grupo mantém hoje mais de 300 pontos de venda, majoritariamente nos formatos de atacarejo e supermercado tradicional.
Balanço do segundo trimestre: receita sobe, lucro cai
Os números mais recentes mostram o efeito da mudança:
- Receita líquida: R$ 9,85 bilhões (+10,4% ano a ano)
- Lucro bruto: R$ 2,31 bilhões
- Lucro líquido ajustado: R$ 237 milhões (-39,3% ano a ano)
- Vendas em mesmas lojas (SSS): queda de 8,0%
Despesas operacionais elevadas pressionaram o resultado final, mesmo com a receita em alta. A queda no SSS indica que lojas maduras ainda sentem o impacto da reorganização.
Por que o mercado premia quem encolhe?
A metodologia do Kantar BrandZ pondera dados financeiros auditados (via S&P Capital IQ) e pesquisas diretas com consumidores. Três pilares definem a nota:
- Significativa: atende necessidades funcionais e emocionais
- Diferente: destaca-se da concorrência
- Saliente: é lembrada no momento da decisão de compra
O Mateus pontuou alto nesses quesitos no Norte e Nordeste, regiões onde nasceu e domina há quase 40 anos. A leitura do mercado: a marca sobreviveu ao ajuste doloroso sem perder a preferência do cliente.
O que observar daqui para frente
Três variáveis vão ditar se a entrada no ranking vira tendência ou episódio isolado. Primeiro, a recuperação do Same Store Sales nos próximos trimestres — sem ela, a base de comparação enfraquece. Segundo, a capacidade de converter o enxugamento da EletroMateus em expansão rentável do atacarejo Mix Mateus. Terceiro, o comportamento das despesas operacionais: o guidance da companhia sinaliza controle, mas a inflação de custos logísticos no Norte/Nordeste permanece um risco não trivial.
Para investidores e concorrentes, o recado é claro: valor de marca no varejo alimentar brasileiro ainda se constrói na capilaridade regional e na memória do consumidor, não apenas no número de portas abertas.
