A Porsche vendeu sua fatia na Bugatti para o Rimac Group por cerca de 1 bilhão de euros, encerrando uma aliança de quase três décadas com o Grupo Volkswagen. A operação foi fechada em 9 de setembro e coloca a marca francesa inteiramente sob comando croata. Mas a troca de dono é só a ponta do iceberg: o primeiro hipercarro dessa nova era já tem nome, motor e data para chegar à linha de produção.
O Tourbillon — sucessor do Chiron — será o termômetro real dessa transição. Ele estreia um V16 8.3 litros aspirado de 16 cilindros acoplado a três motores elétricos, solução híbrida desenvolvida com a Cosworth. A produção começa em 2026. A aposta é arriscada: enquanto a Rimac foca em elétricos puros, a Bugatti mantém a combustão no centro do palco.
Por que a Porsche abriu mão da joia da coroa
A decisão não foi romântica. A montadora alemã enfrenta vendas em queda na China, transição para elétricos mais lenta que o previsto na Europa e uma conta bilionária de investimentos em eletrificação. Vender a Bugatti alivia o caixa: a margem de fluxo de caixa líquido automotivo projetada para 2026 saltou de 3–5% para 5,5–7,5%.
Dos 1 bilhão de euros, 250 milhões vão direto para obrigações de aposentadoria de funcionários. O restante reforça a liquidez num momento em que cada euro conta. Em resumo: a Porsche precisava de dinheiro vivo, não de prestígio.
Como era e como fica a estrutura societária
- 1998–2021: Bugatti 100% Volkswagen Group
- 2021–set/2024: Joint venture Porsche (55%) + Rimac (45%)
- Desde 9/09/2024: Controle total da Rimac Group
A transição começou em 2021, quando a Porsche moveu a Bugatti para uma joint venture com a Rimac. Na prática, a fabricante croata já ditava o ritmo tecnológico há três anos. A venda agora apenas formaliza o que a operação já sinalizava.
O motor que define a nova identidade
O V16 do Tourbillon não é um motor qualquer. São 8,3 litros, 16 cilindros em W, quatro turbos e zero assistência elétrica no eixo traseiro — os três motores elétricos ficam no eixo dianteiro e entre o motor e o câmbio. Potência combinada passa de 1.800 cv. A Cosworth assina o projeto do térmico; a Rimac, a arquitetura elétrica.
Essa escolha separa a Bugatti da própria Rimac. O Nevera, hipercarro elétrico da marca croata, entrega 1.914 cv só com baterias. O Tourbillon aposta na sinergia: combustão para alma e som, eletrificação para torque imediato e emissões controladas. Dois caminhos, mesma casa.
Nova gestão, velhos desafios
Mate Rimac assume a presidência da Bugatti Automobiles. Marko Brkljačić, ex-Rimac Technology, vira diretor de operações. A dupla herda uma marca que vende às centenas, não aos milhares, e precisa provar que a estrutura enxuta da Rimac escala sem perder o artesanato que justifica preços na casa dos 4 milhões de euros.
O programa Solitaire, lançado em 2025, testa esse limite: no máximo dois one-offs por ano, carroceria e interior feitos do zero para cada cliente. É margem pura, mas exige capacidade de execução que a antiga estrutura alemã garantia com folga.
O que observar nos próximos 18 meses
Três variáveis vão ditar se a aposta da Rimac faz sentido financeiro: ramp-up do Tourbillon sem atrasos, adesão dos clientes tradicionais à arquitetura híbrida e capacidade de a Bugatti gerar caixa próprio — sem injeções da matriz. O primeiro carro de série sai em 2026. Até lá, cada protótipo testado em Molsheim vale mais que qualquer comunicado à imprensa.
