Economia

Querosene cai 14,5%: por que passagens aéreas não vão cair agora

Queda de 14,5% no preço do querosene de aviação e passagens aéreas
Apesar da forte queda no preço do querosene, passagens aéreas não devem cair imediatamente por conta de outros custos operacionais.

A Petrobras anunciou um corte de 14,5% no preço do querosene de aviação (QAV) para julho, reduzindo R$ 0,81 por litro cobrado das distribuidoras. Se o combustível representa um dos maiores custos operacionais das companhias aéreas, essa trégua nos gastos deveria chegar ao bolso do passageiro? A resposta depende de uma conta que ignora apenas o preço do barril de petróleo.

O alívio no caixa das operações aéreas

O corte vigente a partir de julho marca o segundo recuo consecutivo na cotação do insumo. Em junho, a estatal já havia promovido uma redução de 14,2%, ou R$ 0,93 a menos por litro. Juntas, as duas revisões revertem parte de uma forte curva de alta que incomodava o setor desde março.

A justificativa para o ajuste está no mercado global. Segundo a Petrobras, as cotações internacionais do querosene perderam fôlego após o recuo nas tensões geopolíticas no Oriente Médio. O temor de interrupções na rota do Estreito de Ormuz, que havia elevado os custos da commodity, se dissipou no curto prazo.

Para as companhias aéreas, a notícia representa oxigenação direta na operação. O QAV responde por uma fatia considerável das despesas de qualquer voo comercial, e qualquer variação cambial ou no petróleo impacta imediatamente o resultado operacional das empresas. Mas o efeito mais relevante aparece fora dos balanços.

Por que o bilhete não fica mais barato

Embora o custo do combustível tenha caído, a passagem aérea não acompanha automaticamente essa trajetória. A definição do valor cobrado do passageiro obedece a outras variáveis de mercado, como a oferta de assentos, a demanda por viagens, a concorrência e a taxa de câmbio do dólar.

Os números recentes ajudam a entender esse descompasso. Dados da Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) apontam que a tarifa média doméstica atingiu R$ 632,53 em maio. Esse valor representa uma alta de 11,2% frente ao mesmo mês de 2025.

  • Preço médio da passagem (maio/2026): R$ 632,53 (+11,2% ao ano)
  • Preço médio do QAV (maio/2026): R$ 6,46 por litro (+68,5% ao ano)
  • Corte de junho: -14,2% (R$ 0,93 por litro)
  • Corte de julho: -14,5% (R$ 0,81 por litro)

A herança da alta e o que observar daqui pra frente

Apesar dos dois recuos seguidos, a conta acumulada ainda pesa. Em 2026, o querosene de aviação registra alta acumulada de 40,5%. Na comparação entre o valor atual e o praticado em dezembro de 2025, o litro do insumo permanece R$ 1,39 mais caro. As empresas continuam tentando recompor margens diluídas pelos meses anteriores.

A pressão sobre os custos foi tamanha que, em maio, a ANP registrou um salto de 68,5% no valor do litro do QAV na comparação anual, pico que antecedeu as revisões para baixo da estatal. Com as revisões de junho e julho, a tendência é de estabilidade no custo do insumo enquanto não houver novos choques geopolíticos.

O que observar daqui para a frente é a velocidade da recuperação da demanda aérea e o comportamento da moeda norte-americana. Se a procura por voos se mantiver aquecida nas temporadas de férias e o dólar continuar em patamares elevados, a redução no querosene servirá apenas para segurar novos reajustes nos bilhetes, não para revertê-los. A trégua veio para o caixa das empresas; o bolso do viajante continuará dependendo da lei da oferta e procura.