De aspiradores de pó a SUVs: a nova onda chinesa
A Dreame, famosa por aspiradores robôs, planeja vender carros elétricos a partir do próximo ano. Se essa transição parece ousada, ela é apenas a repetição de um roteiro já testado por gigantes do eletroeletrônico que agora miram o asfalto. A Rox Motor, fundada por um magnata do mesmo setor de eletrodomésticos, começou a vender SUVs em 2023. A Xiaomi, eternizada pelos celulares acessíveis, já coloca modelos esportivos nas ruas desde o ano passado.
O movimento levanta uma pergunta central: por que novas marcas continuam a entrar em um setor que já parece saturado? A resposta exige olhar para os dados reais de mercado e para a nova configuração competitiva global.
Um oceano saturado (e vermelho)
O cenário numérico do setor na China impressiona pelo volume, mas assusta pela fragmentação. Nada menos que 143 marcas comercializaram ao menos um carro no país no ano passado. Contudo, a concentração revela a verdadeira realidade do mercado: 46 dessas empresas não ultrapassaram a marca de mil unidades vendidas.
Mesmo com o excesso de concorrentes, a liquidação esperada não ocorreu. Em 2023, 23 novas marcas entraram no mercado, enquanto apenas nove foram descontinuadas. Muitas das aparentes “novas” empresas são, na verdade, submarcas de grandes conglomerados, criadas para isolar veículos premium dos modelos populares. A Geely, terceira maior vendedora do país, é um exemplo claro: administra um portfólio com mais de dez marcas, incluindo Zeekr, Polestar e Lynk & Co.
Consolidação adiada e falência rara
Apesar da previsão constante de fusões e aquisições pelos especialistas, a consolidação segue protelada. As dez maiores empresas respondiam por 84% das vendas totais em 2025, atingindo a marca de 1 milhão de carros cada uma. Porém, essa fatia caiu levemente em relação ao ano anterior. O mercado continua, portanto, resistindo a uma centralização drástica.
A falência corporativa integral é um evento raro, mas devastador. O caso mais marcante foi o da Hozon Auto, fabricante da marca Neta. A empresa entrou em processo de falência após interromper os pagamentos de grande parte de seu quadro funcional em 2024. O caso ganhou proporções extremas quando funcionários revoltados encurralaram o fundador da montadora em sua sede em Xangai, exigindo salários atrasados. Mas o efeito mais relevante para o futuro do setor não está nas ruas chinesas.
Queda na demanda e virada para o exterior
As perspectivas internas para 2026 indicam um cenário de forte contração. Em abril, as vendas totais de carros na China caíram 20% em relação ao mesmo mês do ano anterior, configurando o sétimo mês seguido de recuo. O governo central passou a criticar duramente a guerra de preços predatória que vigorava desde 2023. Os preços voltaram a subir em maio, um reflexo da intervenção do Estado e, segundo a BYD (líder mundial do setor), do aumento nos custos de componentes cruciais, como chips e baterias.
- Demanda interna: Queda de 20% em abril (7º mês seguido de recuo)
- Preços: Alta em maio após pressão do Estado e custo maior de insumos
- Exportações: Salto de 80% em abril na comparação anual
Oceanos azuis e margens de sobrevivência
Com o encolhimento da demanda e a pressão sobre os custos internos, as exportações deixaram de ser apenas uma estratégia de crescimento para se tornarem uma tábua de salvação financeira. O salto de 80% nas vendas externas em abril ilustra a velocidade dessa mudança de rota. Montar redes de distribuição no exterior exige alto investimento e tempo de maturação. No entanto, as operações internacionais entregam margens de lucro maiores, o que faz total diferença na atual fase de compressão financeira.
Daqui para frente, o fator de risco para empresários e investidores está no timing dessa transição global. As montadoras que não conseguirem financiar a custosa expansão internacional com as operações locais em baixa terão seus dias contados. A consolidação do mercado chinês não ocorreu no modelo doméstico, mas a pressão cambial e as barreiras alfandegárias globais devem antecipar a seleção natural que a guerra de preços adiou.
