Economia

Financiamento climático supera US$ 2 trilhões, mas ritmo preocupa

Marco histórico esconde um alerta para o investidor

O fluxo global de capital para o clima ultrapassou US$ 2 trilhões pela primeira vez em 2024 e deve fechar 2025 em US$ 2,1 trilhões. Porém, esse aparente sucesso esconde uma desaceleração perigosa que pode comprometer o retorno e a segurança de operações em diversas cadeias globais.

A freada nos investimentos e o efeito nos negócios

Depois de um salto de 30% em 2021, o crescimento dos aportes verdes despencou para uma estimativa de apenas 2% em 2025. O mercado amadureceu e a tecnologia barateou, mas a Iniciativa de Política Climática (CPI) alerta: sem crescimento sustentado de dois dígitos, as metas climáticas ficam inviáveis.

Para o empresário, isso significa um cenário de riscos físicos crescentes e rupturas na cadeia de suprimentos. “Nesse ritmo, os fluxos não alcançarão nem mesmo as menores necessidades de mitigação estimadas até meados da década de 2030, agravando os riscos”, afirma o relatório.

Onde o dinheiro está (e onde falta)

Da fatia de US$ 1,9 trilhão destinada a mitigar emissões em 2024, os setores de energia, transportes e infraestrutura concentraram quase tudo. O agronegócio, setor crítico para o Brasil, fica com migalhas.

  • Energia: US$ 952 bilhões
  • Transportes: US$ 492 bilhões
  • Edificações e infraestrutura: US$ 359 bilhões
  • Agricultura e florestas: US$ 8 bilhões

Para o setor agroflorestal atingir o patamar necessário até 2030, o volume de recursos precisaria saltar absurdas 153 vezes. Mas o efeito mais relevante aparece em outra área crítica.

O abismo da adaptação

Enquanto a mitigação capta bilhões, a adaptação — o preparo para lidar com os impactos já inevitáveis do aquecimento global — recebeu míseros US$ 64 bilhões em 2024. Isso equivale a apenas 3% do total. Ignorar a adaptação deixa negócios e infraestruturas expostos a prejuízos físicos diretos.

Origem e destino: a geopolítica do capital verde

O setor privado lidera os aportes com US$ 1,2 trilhão. Já os recursos públicos somaram US$ 763 bilhões, mas o financiamento transfronteiriço de governos recuou 6%, caindo de US$ 210 bilhões para US$ 198 bilhões.

Quem ganha essa disputa por capital? A geografia do investimento favorece poucos. Economias avançadas ficaram com 40,9% dos recursos e a China com 36,7%. Países menos desenvolvidos, os mais vulneráveis, receberam apenas 1,7%.

A COP29 tentou equilibrar a balança ao fixar US$ 300 bilhões anuais de países ricos, valor bem abaixo dos US$ 1,3 trilhão exigidos. Juros globais altíssimos e apertos fiscais nos países doadores travam a ajuda.

Projeções e oportunidades

A despeito da lentidão, o mercado de energias limpas cresceu 17% em 2024, movido pela eletrificação e pela segurança energética. Veículos elétricos lideram os novos aportes e o investimento em renováveis já equivale ao dobro do direcionado aos combustíveis fósseis. Segundo a CPI, o financiamento climático resistiu a pandemias e crises, mas o ritmo exige aceleração urgente.

O que observar daqui para frente

A demanda climática até 2030 exige uma média anual de US$ 7,8 trilhões em mitigação, saltando para US$ 9 trilhões entre 2031 e 2035. Profissionais e investidores devem monitorar como o setor privado preencherá a lacuna deixada pela retração de recursos públicos internacionais e em quais setores de adaptação a escassez de capital criará demandas inéditas e urgentes.