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Acordo UE-Mercosul: exportações argentinas disparam 44% e acendem alerta no Brasil

Gráfico mostra alta de 44% nas exportações argentinas para UE em itens com tarifa zero pós-acordo Mercosul
Exportações agroindustriais argentinas disparam 44% em produtos com corte imediato de tarifas UE-Mercosul

As exportações agroindustriais da Argentina para a União Europeia somaram US$ 1,92 bilhão nos quatro primeiros meses de vigência do acordo comercial, um salto de 21% sobre a média histórica. Mas o dado que chama a atenção dos estrategistas é outro: nos itens beneficiados com corte imediato de tarifas, a alta chegou a 44%.

O tratado entrou em vigor provisoriamente em maio, após 25 anos de negociação. A janela curta já mostra quem soube se posicionar primeiro para capturar a preferência tarifária.

O salto imediato nos números argentinos

Dados da Secretaria de Agricultura, Pecuária e Pesca da Argentina mostram que o fluxo entre maio e agosto superou a média dos três anos anteriores em mais de US$ 330 milhões. O volume total embarcado reflete a rapidez com que exportadores argentinos ativaram cadeias logísticas e certificações exigidas pelo bloco europeu.

Produtos com tarifa zero desde o primeiro dia — como sucos, frutas, óleos vegetais, café solúvel e pescados — explicam a disparada de 44% nas categorias “liberadas”. Carne bovina, suína e de frango, classificadas como sensíveis, ficaram fora desse pico inicial por estarem sujeitas a cotas anuais.

Quais produtos puxaram a fila da preferência

O acordo prevê eliminação total de tarifas para 77% da pauta agropecuária do Mercosul, com prazos de desgravação entre 4 e 10 anos. Na prática, a largada beneficiou quem já tinha escala e conformidade sanitária prontas:

  • Taxa zero imediata: frutas frescas e processadas, sucos, óleos vegetais, café moído e solúvel, peixes e crustáceos.
  • Redução gradual com cotas: carnes bovina, suína e de aves (contingentes anuais definidos).
  • Desgravação longa (até 10 anos): açúcar, etanol, laticínios e alguns cortes específicos de carne.

Essa assimetria nas regras de acesso cria janelas de oportunidade desiguais entre os sócios do bloco.

O espelho para o agronegócio brasileiro

O Brasil, maior exportador agrícola do Mercosul, opera sob o mesmo arcabouço tarifário. A performance argentina funciona como um termômetro: mostra o teto de ganho possível quando a burocracia interna não trava a largada.

Empresários brasileiros relatam que a emissão de certificados de origem e a adaptação a novas regras de origem cumulativa ainda geram gargalos em portos e órgãos anuentes. Cada semana de atraso na emissão de documentos é quota de mercado cedida a concorrentes do Cone Sul ou a produtores europeus protegidos.

O entrave que ainda pode travar o jogo

O Parlamento Europeu encaminhou o tratado ao Tribunal de Justiça da UE a pedido de agricultores locais e grupos ambientalistas. A contestação foca em cláusulas de sustentabilidade e na suposta violação do princípio da precaução.

Se o tribunal identificar vícios formais, a aplicação provisória pode ser suspensa — o que devolveria as tarifas cheias do dia para a noite. O risco jurídico não invalida os números atuais, mas exige que contratos de longo prazo prevejam cláusulas de force majeure ligadas à validade do tratado.

O que observar daqui para frente

Três variáveis definem se o momento argentino vira tendência estrutural ou ponto fora da curva: a velocidade de emissão de certificados de origem no Brasil, a gestão das cotas de carnes sensíveis no segundo semestre e a decisão do Tribunal de Justiça europeu, prevista para os próximos trimestres.

Para o investidor ou gestor de cadeia de suprimentos, a lição imediata é operacional: quem tem compliance aduaneira pronta captura a margem da preferência; quem depende de adequação posterior paga o custo da inércia em dólares não realizados.