Brasil e Estados Unidos oficializaram nesta quarta-feira (30) a criação de um grupo de trabalho bilateral para negociar a remoção de tarifas que pesam sobre exportações brasileiras. O canal nasce sob pressão: sobretaxas de até 25% já estão em vigor e afetam setores estratégicos. A grande incógnita é saber se o novo mecanismo terá força para reverter o quadro ou apenas alongar o diálogo.
O anúncio saiu de Milwaukee, onde ministros brasileiros se reuniram com o representante comercial americano, Jamieson Greer, à margem do encontro de comércio do G20. Pelo lado do Brasil, estiveram Mauro Vieira (Relações Exteriores) e Márcio Elias Rosa (MDIC). O governo dos EUA prometeu entregar, nas próximas semanas, um documento definindo o escopo das negociações — incluindo barreiras tarifárias e não tarifárias.
O que está na mesa: números que doem no bolso
Duas medidas americanas, anunciadas em julho, dispararam a urgência das conversas. A primeira, baseada na Seção 301 da legislação comercial dos EUA, impôs tarifa adicional de 25% sobre uma lista de produtos brasileiros. A segunda estabeleceu sobretaxas de 10% a 12,5% para importações de países enquadrados na política americana de combate ao trabalho forçado — regra que também atingiu parcelas do fluxo exportador brasileiro.
Embora o MDIC não detalhe quais itens específicos sofrem o impacto total, fontes do setor produtivo apontam que aço, alumínio, suco de laranja e carnes estão entre os mais expostos. Cada ponto percentual a mais na tarifa reduz a competitividade e aperta margens já comprimidas pelo câmbio e logística.
Cronologia de uma reaproximação forçada
O grupo de trabalho não nasceu do zero. Ele é a etapa presencial de um processo retomado em agosto:
- 21 de agosto: ligação telefônica entre os presidentes Lula e Trump reativa o canal político de alto nível.
- 31 de agosto: reunião virtual entre equipes técnicas e ministeriais avança na pauta operacional.
- 30 de setembro: encontro presencial em Milwaukee consolida a estrutura negocial.
A escolha de Milwaukee não foi aleatória. A cidade sedia a reunião ministerial do G20 sobre comércio nos dias 30 de setembro e 1º de outubro, com Greer como anfitrião. O ambiente multilaterais serviu de pano de fundo para o bilateral.
Como o grupo vai funcionar na prática
O MDIC descreve o novo fórum como um “canal específico para discussão de obstáculos comerciais”. Na prática, isso significa:
- Agenda fixa e recorrente, substituindo contatos esporádicos.
- Mandato para tratar tanto de tarifas (o núcleo duro) quanto de barreiras sanitárias, técnicas e regulatórias.
- Compromisso de ambos os lados de buscar “soluções por meio do diálogo”, nas palavras da nota oficial.
Mas o diabo mora nos detalhes. O documento americano prometido para as próximas semanas ditará o ritmo: se trouxer concessões concretas ou apenas princípios genéricos, o grupo terá trajetórias muito diferentes.
Por que o desfecho importa para além do comércio bilateral
O Brasil é o segundo maior parceiro comercial dos EUA na América Latina, com fluxo superior a US$ 80 bilhões anuais. Uma escalada tarifária sustentada não só penaliza exportadores brasileiros — ela também eleva custos para a indústria americana que depende de insumos e commodities do Brasil. Setores como siderurgia, automotivo e processamento de alimentos nos dois países monitoram cada sinal.
Além disso, o desenho desse acordo pode virar referência para futuras negociações do Brasil com outros parceiros e para a própria postura americana em fóruns como a OMC. Um acerto pragmático aqui sinaliza disposição para resolver disputas fora de painéis contenciosos.
O que observar nas próximas semanas
Três variáveis definirão se o grupo de trabalho entrega resultado ou vira mais uma sala de reuniões:
- O documento dos EUA: nível de detalhamento, prazos propostos e disposição para reduzir as sobretaxas de julho.
- Primeira reunião técnica: se ocorrer antes de novembro, indica urgência real; se deslizar para 2025, sinaliza prioridade baixa.
- Reação do Congresso americano: qualquer avanço tarifário depende, em última instância, de anuência legislativa — e o calendário eleitoral dos EUA em 2026 comprime janelas de ação.
Para o empresariado brasileiro, a recomendação prática é manter os planos de diversificação de mercados, mas preparar cenários de reentrada competitiva nos EUA caso as tarifas caiam. O grupo de trabalho abriu a porta; a chave para girá-la está, agora, nas mãos de Washington.
