A farmacêutica dinamarquesa Novo Nordisk fechou acordo de até US$ 2,6 bilhões (R$ 13,6 bilhões) com a chinesa Jiangsu Hengrui Pharmaceuticals para garantir os direitos globais — exceto China continental, Hong Kong, Macau e Taiwan — sobre o HRS-1596, candidato a pílula para perda de peso e diabetes tipo 2. O movimento expõe a urgência da líder do mercado de GLP-1 em repor seu pipeline enquanto patentes-chave começam a expirar.
O pagamento inicial é de US$ 300 milhões (R$ 1,57 bilhão), com outros US$ 2,3 bilhões (R$ 12 bilhões) atrelados a marcos de desenvolvimento, regulação e vendas. A Hengrui já obteve aval na China para iniciar testes de Fase 1.
Por que a pressa agora
As ações da Novo caíram mais de 70% das máximas históricas nos últimos meses, pressionadas pela concorrência direta da Eli Lilly, cujo Mounjaro e Zepbound ganharam tração rápida. Com patentes centrais vencendo na próxima década, a empresa precisa de ativos de nova geração — preferencialmente orais — para manter a fatia de um mercado que analistas projetam em US$ 100 bilhões anuais (R$ 522,4 bilhões) até o início dos anos 2030.
O acordo também sinaliza a maturidade do setor chinês de P&D em agonistas de GLP-1. A Hengrui deixa de ser apenas fornecedora local para se tornar parceira estratégica de uma big pharma ocidental.
O que muda para o investidor
- Pipeline de longo prazo: o HRS-1596 está em estágio inicial (Fase 1); receita relevante só aparece no fim da década, se aprovado.
- Proteção de moat: a aquisição impede que a Lilly ou outra rival capture o ativo.
- Sinal de disciplina: US$ 300 milhões upfront é modesto para o caixa da Novo; o grosso depende de performance.
Mas o efeito mais relevante aparece na dinâmica competitiva global.
O tabuleiro geopolítico da obesidade
Até pouco tempo, a China era vista como mercado consumidor, não como origem de inovação em peptídeos. A parceria Hengrui-Novo — a segunda do tipo em meses — mostra que laboratórios chineses dominam a química de moléculas orais de GLP-1 com custo e velocidade atrativos. Para a Novo, acessar essa capacidade reduz risco de atraso no desenvolvimento interno.
Analistas divergem sobre o impacto imediato. Evan Seigerman, da BMO Capital Markets, avalia que a transação não altera o cenário competitivo no curto prazo, mas classifica o candidato como “opção atraente de pipeline de longo prazo”. Markus Manns, da Union Investment, vai além: considera o acordo positivo, porém insuficiente para reverter a percepção de mercado sem negócios maiores e compostos mais avançados.
O que observar daqui pra frente
Três variáveis definirão se a aposta valeu a pena: (1) dados de Fase 1 do HRS-1596, esperados para 2025, mostrando tolerabilidade e perda de peso comparável a injetáveis; (2) capacidade da Novo de escalar produção oral sem comprometer margens; (3) reação regulatória em EUA e Europa a um ativo desenvolvido majoritariamente na China. Enquanto isso, a Lilly avança com seu próprio pipeline oral — orforglipron — já em Fase 3. A corrida não espera.
