Economia

Você não vai acreditar no que a WMcCann fez para ‘vender’ o agro ao Brasil…

Equipe da WMcCann apresentando estratégia de marketing para o agronegócio com logotipo John Deere
WMcCann lança vertical exclusiva para o agro e estreia com conta da John Deere

A WMcCann, agência por trás de marcas como GM, L’Oréal, Mastercard e Nestlé, inaugurou há seis meses uma vertical exclusiva para o agronegócio. A estreia veio com a conta da John Deere, gigante global do setor. A jogada sinaliza uma mudança estrutural na forma como as grandes anunciantes tratam o campo.

Mas por que uma agência de consumo de massa resolveu montar uma equipe especializada só para falar com o produtor rural? A resposta passa longe do óbvio e mexe com o bolso de quem investe em comunicação.

O fato: especialização deixa de ser opcional

A nova divisão nasceu da constatação de que o agro não cabe mais em briefings genéricos. Renata Bokel, CEO da operação, define o setor como “vanguarda e ponta”, responsável por mover a economia nacional. A decisão de alocar talentos dedicados — em vez de diluir o tema entre contas gerais — reflete a complexidade técnica e o volume de verba que o segmento concentra hoje.

Com a John Deere no portfólio de entrada, a agência assume o desafio de traduzir tecnologia pesada para uma linguagem que ressoe tanto no campo quanto na cidade. É um teste de fogo para a tese de que o agronegócio precisa de “showroom” urbano.

Impacto direto: o fim do ‘herói da grande ideia’

Para o empresário que contrata marketing, a lição é clara: a estrutura de agência mudou. Bokel admite que não existe mais espaço para o gênio solitário. Hoje, a entrega passa por programadores, engenheiros de prompt e estrategistas de varejo trabalhando lado a lado.

  • Times híbridos: criativos dividem mesa com especialistas em LLMs (Large Language Models).
  • Orquestração: a agência vira maestra de um ecossistema que inclui creators, promoção no PDV e eventos presenciais.
  • Relação longa: o conceito de “barriga no balcão” substitui o projeto pontual; entendimento profundo do negócio do cliente vira moeda de troca.

Essa reorganização interna responde a uma pressão externa brutalmente simples: a tolerância do consumidor virou uma “passada de dedo”.

O desafio da relevância na era do scroll

Bokel resume o dilema: “Criatividade não voltada para o negócio é só barulho”. Em um ambiente onde o usuário decide em milissegundos se presta atenção, a relevância supera a originalidade pela originalidade. A campanha do Sonic, citada pela executiva, exemplifica a nova fronteira: a estratégia incluiu ensinar modelos de IA a falarem do personagem, antecipando como a marca apareceria em respostas geradas por máquinas.

Se a marca não “fura a bolha” do algoritmo e da atenção humana, o investimento evapora. A saída não é gritar mais alto, mas ser indispensável no contexto do usuário.

IA: infraestrutura invisível, não diferencial

A CEO projeta um cenário onde a inteligência artificial será “igual a água encanada” — ubíqua e democrática. Nesse horizonte, a commodity tecnológica deixa de ser vantagem competitiva. O ativo escasso volta a ser a ideia criativa capaz de emocionar e gerar confiança.

Marcas só entram na vida das pessoas se forem convidadas. O bloqueio é o padrão; a exceção exige narrativa consistente, execução impecável across canais e, acima de tudo, verdade no discurso. A “escola de samba” inteira precisa empurrar o carro alegórico, como define Bokel.

O que observar daqui para frente

Três movimentos devem ditar o ritmo dos próximos trimestres para quem gere budgets de marketing:

  1. Verticalização do atendimento: espere mais agências criando unidades de negócio para setores complexos (saúde, energia, agro), fugindo do modelo full-service genérico.
  2. Otimização para LLMs: SEO dá lugar a “LEO” (Large Engine Optimization); garantir que a marca seja citada corretamente por IAs generativas vira KPI estratégico.
  3. Mensuração de ‘orquestração’: relatórios de performance precisarão cruzar dados de brand lift, varejo, earned media e conversão em uma única visão de ecossistema.

A aposta da WMcCann no agro não é apenas sobre tratores; é um case estudo de como a publicidade brasileira está se rearquitetando para sobreviver à fragmentação da atenção e à commoditização da tecnologia. Quem não adaptar a estrutura — e a métrica de sucesso — corre o risco de ficar falando sozinho.