Bancários da Caixa Econômica Federal cruzaram os braços em 10 de setembro e o Tribunal Superior do Trabalho julga o dissídio coletivo nesta terça-feira (29). O estopim não foi salário, nem jornada: foi o plano de saúde que, segundo relatos, cobra por materiais nunca usados e reajusta taxas em até 60% sem avisar.
O técnico Matheus Crespo, 45, viu seus gastos dobrarem após uma lesão no início de 2026. “Muitas pessoas precisam escolher qual procedimento podem fazer. Eventualmente deixam de tratar o que não é urgente”, resume. Ele não está sozinho — a insatisfação espalha-se de Natal a Bauru, passando pelo Rio de Janeiro.
O que está por trás do reajuste que assusta
A direção do banco propõe elevar a coparticipação de pronto-atendimento de R$ 75 para R$ 120 — alta de 60%. Outras taxas seguem a mesma direção. A Caixa argumenta que os valores repassados a hospitais e médicos credenciados ficam disponíveis no aplicativo Saúde Caixa e no portal do plano, com detalhamento da coparticipação por atendimento.
Mas funcionários contestam a transparência. Relatam faturas com itens que não correspondem ao tratamento real: caixas inteiras de agulhas, luvas e seringas cobradas após uma única injeção. Uma bancária do Rio de Janeiro denunciou cobrança de dois rolos de esparadrapo por mais de R$ 100 em uma aplicação de soro.
Números que não fecham no interior
Frederico Cruz dos Santos, 46, caixa em Bauru (SP) e diretor do sindicato local, expõe a conta do reembolso: “Hoje, em uma consulta você paga R$ 500. A Caixa te reembolsa R$ 50”. A defasagem obriga o trabalhador a antecipar o valor total e esperar — às vezes em vão — o retorno parcial.
- Consulta particular: R$ 500 (custo real)
- Reembolso Saúde Caixa: R$ 50 (10% do gasto)
- Fila na rede credenciada: até 3 meses por vaga
Sem especialistas na região, o deslocamento vira regra. Crespo, lotado em Natal (RN), lembra que o estado ficou três anos sem urologista credenciado. Cirurgia cardíaca? Não existe na capital potiguar. Quem mora no interior paga duas vezes: no bolso e no tempo.
A 13ª mensalidade que ninguém mais cobra
Instituída no acordo coletivo de 2023 e vigente desde 2024, a cobrança extra anual não existe em nenhum outro plano de mercado. A Caixa justificou a medida como necessária para cobrir o déficit do Saúde Caixa. Para os bancários, é mais um sintoma de um modelo que beira o colapso.
O funcionamento lembra a previdência social: os mais jovens, que usam pouco, financiam os mais velhos, que usam muito. “Vai chegar uma hora que as pessoas vão começar a sair do programa. Eventualmente o plano pode acabar quebrando”, alerta Santos.
Falta de auditoria independente trava a confiança
A bancária Júlia Eberhardt, do Rio de Janeiro, acusa a Caixa de desmontar a área interna que auditava os gastos do plano. Documentos encaminhados à imprensa mostram casos como uma tomografia de R$ 705,42 que veio acompanhada de R$ 1.913,75 em materiais e R$ 877,45 em medicação — total de R$ 3.496,62. A funcionária precisou exigir nova guia apenas com o valor do exame.
O banco mantém um conselho paritário e publica balanços mensais. Eberhardt considera insuficiente. O sindicato defende auditoria externa independente — pedido que, até agora, não avançou.
O que observar daqui para frente
A decisão do TST nesta terça-feira (29) define se a greve continua e sob quais condições. Mas o nó estrutural permanece: um plano que envelhece junto com seu quadro funcional, rede credenciada encolhida no interior, reembolsos defasados e faturas que ninguém consegue conferir sem pedir prontuário a cada consulta. Se o modelo não mudar, a próxima paralisação será apenas questão de tempo — e o custo, mais uma vez, recairá sobre quem precisa do atendimento.
