Economia

O segredo que ninguém conta sobre a rota dos minerais críticos…

Carga de minerais estratégicos apreendida no Porto de Santos durante operação contra contrabando
Mais de 50 mil toneladas de minerais críticos tentaram sair do Brasil irregularmente no 2º semestre de 2024.

Mais de 50 mil toneladas de minerais estratégicos tentaram deixar o Brasil de forma irregular apenas no segundo semestre de 2024. O volume apreendido oficialmente chega a 25 mil toneladas, mas uma única carga de manganês burla a fiscalização e expõe a fragilidade do sistema.

O dado vem da Receita Federal em Santos e revela um padrão que vai muito além de contrabando comum. A operação envolve licenças reais, notas fiscais frias e uma logística que migra de porto em porto diante de qualquer cerco.

O mapa das apreensões: cobre lidera, mas não está sozinho

O cobre, insumo indispensável para baterias e transição energética, encabeça a lista com mais de 10,4 mil toneladas retidas em 395 contêineres. O manganês, essencial para aços especiais e também para baterias, aparece em segundo com quase 8 mil toneladas.

A distribuição geográfica chama atenção: portos de Belém, Santos, Pecém, Itajaí, Salvador e Vitória registram ocorrências. Não há concentração em um único estado — a malha é nacional.

  • Cobre: 10.441 toneladas (395 contêineres)
  • Manganês: 7.870 toneladas (291 contêineres)
  • Ferro + cobre: 2.803 toneladas (102 contêineres)
  • Ilmenita (titânio): 2.310 toneladas (86 contêineres)
  • Quartzo (silício): 1.292 toneladas (48 contêineres)
  • Zirconita (nuclear): 147 toneladas (6 contêineres)

Para efeito de comparação, as 25 mil toneladas apreendidas representam cerca de 1% do cobre e manganês exportados legalmente no mesmo período. A ponta do iceberg pode ser muito maior.

A engenharia da fraude: como “esquentar” minério ilegal

Diferente do ouro ou das drogas, minerais críticos não cabem em malas nem se escondem em cargas legítimas. O volume exige navio, contêiner, documentação completa. A ilegalidade, portanto, não está no esconderijo — está na papelada.

O esquema usa empresas com licenças válidas da ANM (Agência Nacional de Mineração). Essas autorizações permitem extrair determinada quantidade em área regularizada. Criminosos usam o documento como “carta branca” para emitir notas fiscais frias que acobertam volumes muito maiores, extraídos em garimpos ilegais.

Rômulo Brandão Neto, chefe de vigilância da Receita em Santos, resume: “O Brasil está inundado de licenças emitidas para pessoas que as usam só para notas fiscais frias”. A estrutura formal vira fachada para o crime.

Crime organizado e a escala industrial

Pablo Cesário, presidente do Ibram, afirma que a mineração ilegal deixou de ser artesanal. A alta dos preços globais atraiu facções que já operam em setores como tabaco, defensivos agrícolas e bebidas — o mesmo padrão da Operação Carbono Oculto.

O destino principal, segundo a inteligência aduaneira, é o continente asiático, com destaque para a China. A demanda por insumos de transição energética e defesa cria um mercado voraz que não pergunta a origem.

O efeito “enxugar gelo” e a falha de integração

Quando a Receita cerrou o porto de Vila do Conde (PA), as exportações por contêiner caíram a zero na região. A comemoração durou pouco: as rotas migraram para Pecém (CE), Santos, Salvador, Itajaí e Paranaguá. O contrabando tem dinâmica de água — vaza por onde encontra brecha.

O gargalo central é a desconexão entre quem fiscaliza a origem e quem controla a saída. Polícia Federal e órgãos ambientais destroem dragas e apreendem máquinas no interior, mas os CNPJs autuados não chegam às alfândegas. Resultado: a mercadoria já está a caminho do porto quando a operação termina.

O que observar daqui para frente

A ANM promete integrar bases minerárias, fiscais, logísticas e aduaneiras. Se sair do papel, será o primeiro passo real para rastrear a origem do minério antes que ele embarque. Enquanto isso, investidores e compradores internacionais já ajustam due diligence: a credibilidade da produção brasileira está na linha de frente. Quem opera no setor — ou financia quem opera — precisa monitorar não só a licença, mas a cadeia inteira até o costado do navio.