Economia

Governo admite risco de socorro a estatal militar; lista de empresas em alerta sobe para 12

Governo federal e fragatas da Marinha representam risco fiscal para orçamento da União
Emgepron entra no mapa de riscos fiscais; 12 estatais podem demandar recursos públicos.

O governo federal incluiu a Emgepron, estatal responsável pela construção das fragatas da Marinha, no mapa oficial de riscos fiscais da União. A classificação é de “risco remoto”, mas a entrada da empresa no radar do Tesouro acende um sinal de alerta para o orçamento dos próximos anos. Ao todo, são 12 companhias estatais com potencial de demandar recursos públicos.

Não há previsão de desembolso imediato. O documento, anexado ao projeto de Lei de Diretrizes Orçamentárias (PLDO), serve como radiografia periódica das ameaças à trajetória da dívida pública. Ainda assim, a inclusão da Emgepron revela fragilidades no fluxo de caixa do maior programa naval em andamento no país.

O que coloca a Emgepron na mira do Tesouro

Segundo a Secretaria do Tesouro Nacional (STN), o risco decorre da “insuficiência de recursos para finalizar o Programa Fragatas Classe Tamandaré”. O texto cita ainda elevação de custos e reajustes contratuais como fatores de pressão. A estatal não respondeu aos questionamentos até o fechamento desta reportagem.

O cenário macroeconômico recente pesou na análise. A pandemia e choques internacionais de oferta encareceram insumos de projetos de longo ciclo. Para completar, uma nota técnica do Ministério da Defesa aponta que eventuais retaliações comerciais dos EUA — sob a política de tarifas de Donald Trump — poderiam elevar o custo das embarcações, que possuem “notável presença de peças americanas”.

As 12 empresas sob vigilância e seus graus de risco

A lista atualizada mantém as 11 estatais já monitoradas e adiciona a novata. A escala do Tesouro vai de “remoto” (baixa probabilidade) a “provável” (alta chance de materialização). Veja o panorama para 2026:

  • Correios: Provável — já recebeu R$ 12 bi em empréstimo (2024), negocia mais R$ 7 bi e tem aporte de R$ 6 bi previsto para 2027.
  • ENBPar (controladora de Angra 1 e 2): Possível.
  • BNB, Casa da Moeda, Ceasaminas, Companhias Docas (CE, PA, BA, RJ), Codern, Infraero: Remoto em 2026, mas vários sobem para “possível” a partir de 2028.
  • Emgepron: Remoto em todos os anos projetados (2026–2030).

O precedente dos Correios e a lição para o investidor

Foi neste mesmo anexo que surgiram os primeiros sinais do colapso financeiro dos Correios, evidenciado em 2025. A estatal precisou de socorro bilionário após anos de resultado operacional negativo mascarado por receitas financeiras. O paralelo com a Emgepron é inevitável: em 2024, a naval lucrou R$ 319,5 milhões, mas apenas graças a aplicações financeiras; a operação deu prejuízo — padrão repetido desde 2022.

Historicamente, aportes em estatais não dependentes do Tesouro ficavam fora do teto de gastos. Em 2019, a brecha permitiu injetar R$ 7,6 bilhões na Emgepron. O TCU criticou a manobra. Hoje, pelo novo arcabouço fiscal, qualquer injeção compete por espaço com Saúde e Educação dentro do limite de despesas primárias.

O que observar daqui para frente

A próxima atualização do anexo ocorre em agosto, junto à proposta orçamentária de 2026. Dois movimentos merecem atenção: a evolução do câmbio e dos juros sobre o custo das fragatas, e o desfecho das negociações comerciais com os EUA. Se o risco da Emgepron subir de “remoto” para “possível” nas próximas edições, o Tesouro terá de provisionar recursos — e o Congresso, autorizar. Para o empresário e o investidor, o recado é claro: a saúde financeira das estatais segue como variável relevante na formação do resultado primário e, por extensão, na trajetória da dívida/PIB.