Faltando uma semana para o primeiro turno, os principais candidatos à Presidência usaram o fim de semana para cravar posicionamentos econômicos que vão muito além de caminhadas e carreatas. O que está em jogo para o ambiente de negócios?
A agenda de sábado (26) e domingo (27) revelou divergências claras sobre regulação de apostas, crédito ao agronegócio, política de juros e exploração de petróleo — temas que afetam diretamente fluxo de capital, custo de financiamento e segurança jurídica.
O veto às bets virou bandeira transversal
Lula (PT) transformou a proibição das apostas esportivas, assinada na sexta (25), em palanque. Em São Paulo, atacou o modelo atual: “Quem quiser ganhar dinheiro, que arrume um jeito honesto, mas não matando o povo pobre”. Prometeu fiscalização dura contra casas clandestinas.
Ronaldo Caiado (PSD) e Augusto Cury (Avante) ecoaram o tom. Caiado defendeu “restrição dura às publicidades”. Cury foi além: propôs extinção ou taxação pesada, citando “consequências graves à economia e à saúde mental”.
Leitura para o setor: independentemente do vencedor, o marco regulatório das apostas tende a ficar mais restritivo. Operadores legais ganham previsibilidade; o mercado gris deve encolher.
Agronegócio e juros: Zema detalha o que o setor quer ouvir
Em Minas, Romeu Zema (Novo) foi específico: mais crédito para o agro, criação de seguro-safra e queda de juros para “viabilizar maior nível de produção”. A fala mira o gargalo de funding safra 2026/27 e o custo de capital que hoje trava expansão.
Renan Santos (Missão) complementou com pauta de redução de impostos e custos estatais — discurso que dialoga com a reforma tributária em implementação.
Petróleo em Sergipe: Flávio Bolsonaro aposta no “presente de Deus”
Em Aracaju, Flávio Bolsonaro (PL) prometeu investir na produção offshore: “Essa riqueza que Deus deu também para Sergipe, nós vamos tirar lá do fundo do mar”. A sinalização aponta para aceleração de leilões e flexibilização de licenciamento ambiental no setor de óleo e gás.
No mesmo palanque, defendeu redução da maioridade penal, carteira de motorista para menores e castração química — pautas de cunho social, mas que sinalizam viés de “lei e ordem” ao eleitorado conservador.
O que não apareceu nas ruas — e por que importa
- Leonardo Avalanche (PRTB): agenda não divulgada
- Clariana Barão (DC) e Edmilson Costa (PCB): focados em debates ideológicos e atos setoriais
- Rui Costa Pimenta (PCO), Samara Martins (UP), Wilson Grassi (Democrata), Hertz Dias (PSTU): circuitos de podcasts e manifestações de nicho
A ausência de propostas econômicas estruturadas nos candidatos de menor capilaridade reforça a polarização prática entre três vetores: regulação estatal forte (Lula), liberalização setorial (Zema/Bolsonaro) e moralização de mercados (Caiado/Cury).
Escala 6×1 e reforma trabalhista: o ponto cego da campanha
Lula voltou a defender o fim da escala 6×1, em tramitação no Congresso. Nenhum outro candidato abordou o tema no fim de semana. Para varejo, serviços e indústria de turnos, a definição dessa pauta no primeiro semestre de 2027 altera custo de folha em 15% a 20%, segundo estimativas da CNI.
O que observar daqui para frente
Até domingo (4), três variáveis decidem o cenário pós-urnas para quem aloca capital:
- Segundo turno provável: a combinação de votos válidos definirá se o ajuste fiscal continua gradual (Lula) ou acelera com privatizações e abertura (Zema/Bolsonaro).
- Bancadas no Congresso: a composição de Câmara e Senado ditará a viabilidade de veto às bets, seguro-safra e escala 6×1 — mais do que o ocupante do Planalto.
- Reação do Banco Central: qualquer sinal de expansão fiscal não compensada deve antecipar alta da Selic na reunião de novembro.
O fim de semana não mudou a corrida — mas cristalizou as apostas regulatórias que o próximo governo herdará. Quem precifica risco Brasil já tem o mapa.
