O Brasil ultrapassou a Colômbia e tornou-se o segundo maior mercado de ônibus elétricos da América Latina, com 1.883 unidades rodando no primeiro semestre. Só o Chile está à frente, com 4.808 veículos. O que explica essa virada repentina?
Nos últimos oito meses, as vendas dispararam 82% em relação a 2025. Apenas em agosto, 254 ônibus foram emplacados — quase o triplo do mês anterior. Doze fabricantes disputam esse espaço, e oito já produzem no país.
Por que São Paulo dita o ritmo
A capital paulista concentra 80% da frota nacional. Não é coincidência: a cidade proibiu a compra de ônibus a diesel em 2022 e tem meta de zerar emissões do transporte público até 2038. O programa 2025-2028 prevê substituir 2.200 veículos.
O financiamento vem do BNDES, que inclui as operadoras no modelo. Na sexta-feira passada, o banco aprovou R$ 329 milhões para o Rio de Janeiro adquirir 175 ônibus elétricos via parceria público-privada.
O novo manual das cidades
Especialistas apontam uma mudança estratégica: municípios deixaram de apenas comprar veículos para estruturar projetos integrados de eletromobilidade. O segredo está no planejamento antecipado.
- Mapeamento de terrenos e negociação com distribuidoras de energia antes da licitação
- Instalação de eletroterminais e bancos de baterias (BESS) nas garagens
- Combinação com energia solar para reduzir dependência da rede
Curitiba incluiu infraestrutura de recarga no contrato de concessão. Porto Alegre fechou disponibilidade de carga com a distribuidora antes de receber os veículos. Resultado: operação imediata, sem esperar obras de ampliação da rede elétrica.
Guerra dos fabricantes: chineses x nacionais
BYD, Higer e CRRC competem com Eletra, Mercedes-Benz, Volkswagen, Marcopolo, Volvo e Scania. A diversidade de chassis e encarroçadores cria um ecossistema saudável, segundo a ABVE.
A BYD produz 30 chassis por semana em Campinas e já colocou 700 ônibus nas ruas. A Eletra, líder de mercado, investe R$ 270 milhões para ampliar sua fábrica no ABC Paulista — capacidade saltará de 2,2 mil para 4 mil veículos ao ano, gerando 500 empregos diretos e 30 mil na cadeia.
Tecnologia que encurta a conta
O maior entrave ainda é o preço: um ônibus elétrico custa três vezes mais que o similar a diesel. Mas a equação muda com baterias mais compactas e eficientes — autonomia de 250 km por carga — e garantias que subiram de 10 para 15 anos.
Executivos da BYD calculam que cada ônibus elétrico evita o consumo de 35 mil litros de diesel e a emissão de 87 toneladas de CO₂ por ano. Há um universo de 130 mil ônibus urbanos a diesel passíveis de renovação nos próximos anos.
O que observar daqui pra frente
Linhas de financiamento de longo prazo serão o divisor de águas para municípios menores — permitem avaliar o custo total de propriedade, não só o desembolso inicial. Novas tecnologias (híbridos, biometano, hidrogênio) ganham espaço como alternativas de transição. E a produção nacional de baterias, se deslanchar, pode derrubar o preço final de vez.
