Em 2016, um aviso de WhatsApp quebrou um silêncio de seis décadas: a jiboia-do-Ribeira (Corallus cropanii) estava viva e aparecia no quintal de uma família em Sete Barras. O réptil, descrito pela ciência em 1953 e nunca mais visto com vida, ganhou nome — Dona Crô — e virou símbolo de uma virada que une biólogos, moradores e o destino de um dos últimos grandes remanescentes de Mata Atlântica de São Paulo.
O que começou como resgate isolado virou rede de vigilância: de 1953 a 2016, apenas seis espécimes mortos haviam sido registrados. Desde então, com a comunidade alerta, saltaram para 20 novos avistamentos documentados. A mudança não aconteceu por acaso.
O medo que virou ferramenta de ciência
Durante gerações, a semelhança com a jararacuçu (Bothrops jararacussu) — peçonhenta e comum na região — condenava a jiboia à morte imediata. A diferença decisiva passa despercebida a olho nu: fossetas labiais, minúsculos “furinhos” ao redor da boca, ausentes na prima venenosa. Ensinar isso a agricultores e crianças transformou o reflexo de matar no impulso de fotografar e avisar os pesquisadores.
“A potência da educação ambiental está na dúvida que ela planta”, resume Rafael Guimarães, diretor da Preservalle, parceira do Projeto Jiboia do Ribeira (PJR). “O morador passa a se perguntar: ‘será que é ela?’ e liga antes de agir.”
O que a ciência ainda não sabe — e a comunidade ajuda a descobrir
Cada novo registro preenche lacunas básicas da biologia da espécie. Até hoje, desconhecem-se:
- Idade de maturação sexual
- Número médio de filhotes por gestação
- Padrões de atividade sazonal
- O que leva um animal estritamente arborícola a descer ao solo
Dona Crô carregou um transmissor de radiofrequência até a bateria acabar. Outras quatro indivíduos — Esperança (fêmea, pandemia), Ribeiro (macho), Juquiá (fêmea idosa) e um jovem sem nome — foram monitorados graças a olhos locais. “Décadas de expedições científicas não encontraram o que moradores acham caminhando para a roça”, nota a bióloga Daniela Gennari, do MZUSP.
Predador de topo, termômetro da floresta
A jiboia-do-Ribeira é endêmica dos 22 municípios do Vale do Ribeira, região que concentra a maior área contínua de Mata Atlântica do estado — e também a maior pressão por expansão agrícola, obras viárias e fragmentação. Como predadora de topo, sua presença sinaliza cadeias alimentares íntegras. Protegê-la é, na prática, proteger o ecossistema inteiro.
Thiago Barbosa, produtor rural cuja fazenda abrigou a Juquiá, resume a conta: “O intuito era a gente fazer um trabalho junto ao pessoal se conscientizarem da importância de preservar.” Hoje, parte da comunidade reconhece a cobra pelo nome e age como guardiã.
De projeto artesanal a estratégia regional
Após dez anos, o PJR migrou para o Instituto Conservação Brasil, ganhando lastro jurídico e acesso a editais de fomento — embora o financiamento continue sendo o maior gargalo. “Muita coisa saiu do nosso bolso”, admite Gennari. A meta para a próxima década: expandir a rede para todos os 22 municípios e consolidar a jiboia como espécie-símbolo do Vale.
É o primeiro caso conhecido no Brasil de uma serpente — longe do apelo “fofo” de mamíferos carismáticos — liderar um movimento de conservação territorial. O ambientalista Nondas Okiama destaca: “Isso quebra o paradigma de que só animais ‘bonitinhos’ mobilizam pessoas.”
O que observar nos próximos meses
A Secretaria de Meio Ambiente, Infraestrutura e Logística (Semil) afirma manter pesquisas e monitoramento na região, mas a continuidade do trabalho de base — aquele que faz o telefone tocar quando uma cobra aparece — depende de recursos estáveis e da manutenção do elo de confiança com as comunidades. Se a rede segurar, o Vale do Ribeira pode virar referência mundial de conservação liderada por quem vive no território. Se romper, o silêncio de 60 anos pode voltar.
