Ciência

Aos 18 anos, ela criou um algoritmo contra o câncer e entra em Columbia: o segredo da amazonense que a ciência não ignora…

Ada Jamile Gomes de Oliveira, estudante amazonense de 18 anos, criadora de algoritmo contra câncer, ingressando na Universidade Columbia
Ada Jamile, aos 18 anos, celebra sua aprovação em biologia computacional na Universidade Columbia após criar algoritmo oncológico aos 15.

Aos 15 anos, Ada Jamile Gomes de Oliveira transformou o diagnóstico de câncer da tia em um algoritmo registrado no INPI. Hoje, aos 18, a estudante de Manaus inicia a graduação em biologia computacional na Universidade Columbia, nos EUA — uma das dez mais prestigiadas do mundo.

O ponto de virada não veio de um laboratório de ponta, mas de um sentimento de impotência familiar. O que começou como resposta pessoal virou ferramenta de pesquisa internacional.

O diagnóstico que virou código

No primeiro ano do ensino médio, a tia Francisca recebeu o diagnóstico de câncer de mama. Ada, então com 15 anos, não tinha formação médica, mas tinha acesso a Python — linguagem que o professor Roberto Barbosa, do Colégio Militar de Manaus, lhe apresentou.

“Foi um momento mágico, como se um novo mundo tivesse se aberto”, descreve a estudante. A programação virou ponte entre a biologia que ela amava e a vontade de agir.

Com amigas, desenvolveu o projeto Minerva. O coração da ferramenta: um algoritmo de busca “proteína-composto” capaz de rastrear moléculas com potencial terapêutico. O código foi registrado no Instituto Nacional de Propriedade Intelectual antes mesmo de ela completar 16 anos.

Da sala de aula para a ciência real

O professor Barbosa integrava uma rede ligada à Universidade da Califórnia em San Diego (UCSD). O algoritmo de Ada virou referência para outra ferramenta dos pesquisadores americanos — prova de que projetos de ensino médio podem alimentar ciência de fronteira.

“Me mostrou que o que a gente faz aqui influencia gente lá fora”, resume.

O reconhecimento veio em forma de prêmio: Ada tornou-se a primeira amazonense premiada na ISEF (Feira Internacional de Ciências e Engenharia), a maior competição pré-universitária do mundo.

Alzheimer, ondas sonoras e um achado inesperado

O câncer abriu portas para outra frente: Alzheimer. Ada investigou ondas binaurais a 12 Hz — frequência presente no sono profundo — como terapia não invasiva.

O efeito esperado não se confirmou. Mas os genes responderam ao estímulo sonoro reduzindo sua expressão gênica, um achado que a própria pesquisadora chama de “ainda mais interessante”.

Dados do projeto:

  • Algoritmo registrado no INPI aos 15 anos
  • Primeira amazonense premiada na ISEF
  • Pesquisa em Alzheimer com frequência de 12 Hz
  • Ingresso em Columbia para biologia computacional

A Amazônia como lente científica

Ser do Norte não é detalhe biográfico — é variável de projeto. “A logística na região é muito particular. Quando penso em soluções tecnológicas, sempre levo isso em conta”, explica Ada.

Essa visão ganhou peso na preparação para o exterior. No oitavo ano, conheceu a Fundação Estudar por meio de uma colega mais velha. O programa, gratuito para estudantes do penúltimo e último ano do ensino médio com alto desempenho acadêmico e inglês fluente, oferece mentoria para aplicação em universidades globais — incluindo bolsas para custear o processo seletivo quando há necessidade financeira.

As inscrições para a turma de 2027 encerram em 1º de agosto no site da instituição.

O equilíbrio que ninguém ensina no currículo

A ida para Nova York marca também uma virada pessoal. Períodos de cansaço extremo forçaram Ada a redesenhar a relação com o trabalho.

“Por muito tempo, foi difícil nutrir a Ada que existe além da pesquisa. Hoje, tenho orgulho não só do que faço, mas da pessoa que venho me tornando. A parte mais difícil foi entender que eu não sou só quem eu sou no meio acadêmico”, afirma.

O que observar daqui pra frente

A trajetória de Ada expõe um padrão: jovens pesquisadores brasileiros acessando redes globais ainda no ensino médio, com propriedade intelectual registrada e publicações em feiras internacionais. O diferencial não é apenas talento — é infraestrutura de mentoria (como a Fundação Estudar) e professores que conectam sala de aula a laboratórios reais.

Para quem atua em educação, inovação ou captação de talentos, o recado é claro: o próximo algoritmo pode sair de uma escola pública em Manaus. A condição é existir quem ensine Python aos 14 anos e quem oriente a transformar dor pessoal em pergunta científica.

O prazo para a turma 2027 da Fundação Estudar termina dia 1º. Estudantes com perfil compatível — e gestores que os cercam — fariam bem em acompanhar.