O Rio de Janeiro acaba de entrar para um seleto grupo de sete cidades mundiais escolhidas para testar o programa Distritos Lixo Zero. A missão é concreta: tirar pelo menos 70% dos resíduos dos aterros sanitários nos próximos seis anos. Para a capital que lidera as emissões de metano no setor de resíduos no Brasil, o desafio é também uma vitrine de oportunidades.
O peso da liderança nas emissões
Dados do SEEG (Sistema de Estimativas de Emissões de Gases de Efeito Estufa) colocam o Rio no topo do ranking nacional de poluição por resíduos. Esse cenário torna a adesão ao programa — uma parceria da Fundação Zero Desperdício com o Global Methane Hub (GMH) — um movimento estratégico, não apenas simbólico.
A iniciativa busca criar modelos de governança, medição e financiamento focados nos bairros. O prazo para apresentar resultados viáveis é curto: a vitrine será a COP31, em novembro na Turquia.
Metas agressivas e o efeito cascata
O cronograma não perdoa lentidão. As cidades-piloto precisam provar que é possível desviar 70% dos resíduos até 2030 e alcançar 90% até 2040. O foco prioritário são os orgânicos, grandes responsáveis pela geração de metano.
Segundo Marcelo Mena, diretor executivo do GMH, a abordagem distrital permite benefícios imediatos: redução da poluição do ar, geração de empregos e recuperação de recursos que hoje são perdidos. A lógica é testar em escala de bairro para replicar em escala global.
O laboratório que já funciona em Seropédica
Não é tudo promessa. Na região metropolitana, o Centro de Tratamento de Resíduos da Comlurb (CTR-Rio) já opera como caso de sucesso mensurável:
- Monitoramento por satélite de plumas de metano iniciado em 2023;
- Identificação precisa de pontos de vazamento no aterro;
- Expansão da rede de captação com cerca de 500 novos poços em 2025;
- Aumento de 7,35% no aproveitamento energético do biogás frente a 2024.
Para Henrique Bezerra, diretor regional do GMH na América Latina, essa tecnologia é replicável em aterros de qualquer país, transformando passivo ambiental em ativo energético.
Além do aterro: a economia circular na prática
O secretário nacional de Meio Ambiente, Adalberto Maluf, destaca que o Brasil já domina o caminho técnico: cadeia de valor da economia circular e combate ao desperdício de alimentos. Este último, segundo ele, é a medida de maior impacto simultâneo para clima e segurança alimentar.
A participação no programa consolida o alinhamento do país com as metas da presidência da COP30 e da futura COP31, sinalizando ao mercado que a gestão de resíduos deixou de ser custo para virar ativo estratégico.
O que observar daqui para frente
Os próximos passos envolvem a definição dos distritos-piloto cariocas e a estruturação dos mecanismos de financiamento para escalar as soluções. Empresas de tecnologia de monitoramento, logística reversa e biogás devem ficar atentas às licitações e parcerias público-privadas que surgirão. A capacidade do Rio de transformar seu maior passivo ambiental em estudo de caso global será o termômetro para o setor nos próximos dois anos.
