Levantamento exclusivo revela que a maioria dos presidenciáveis apoia a largada da reforma tributária em janeiro de 2027, mas apenas um cogita mexer no calendário constitucional — movimento classificado por especialistas como “insanidade” para a arrecadação. O cenário desenha um racha entre a manutenção do cronograma e a pressão por ajustes profundos.
Dos nomes monitorados, cinco defendem a implementação sem alterar as datas, embora quatro deles exijam correções de rota. A exceção explícita ao cronograma vem de uma candidatura de peso, cujas declarações oscilaram entre suspender o processo e abreviar a transição em poucos meses.
O cenário geral: Apoio majoritário, mas com “poréns”
O estudo, baseado em programas de governo e discursos oficiais, mapeou 80 candidatos ao Executivo. No plano federal, Lula (PT) celebra a aprovação ocorrida em sua gestão e destaca o cashback para famílias do CadÚnico e a desoneração da cesta básica como vitrines do novo modelo.
Do outro lado do espectro, Romeu Zema (Novo) prega um sistema “sem exceções ou regimes especiais”. Ronaldo Caiado (PSD), que atuou contra a aprovação no Congresso, admite não mudar o calendário, mas exige uma reforma “profundamente modificada”. Renan Santos (Missão) e Augusto Cury (Avante) completam o bloco que quer reduzir a carga sobre o consumo — hoje uma das mais altas do planeta — sem quebrar a largada de 2027.
O ponto fora da curva: A oscilação de Flávio Bolsonaro
Flávio Bolsonaro (PL) surge como a única voz com crítica estrutural ao modelo. Em junho, pregava a suspensão por um ano e uma “nova reforma”. Em agosto, migrou para “corrigir distorções” e “abreviar a transição”. No plano de governo, a bandeira é cortar exceções setoriais criadas por lobbies.
Há, porém, um contraponto factual relevante: como senador, o parlamentar defendeu benefícios que elevam a alíquota geral, como regimes especiais para armamentos e profissionais liberais — ambos aprovados. A contradição entre o discurso de campanha e o histórico legislativo deve ser o foco de atenção do eleitorado empresarial.
O alerta dos técnicos: “Emenda constitucional agora é insanidade”
Lucas Ribeiro, CEO da Roit — empresa de tecnologia tributária responsável pelo levantamento —, não mede palavras ao avaliar um eventual adiamento:
“Propor uma emenda constitucional neste momento seria uma insanidade. Colocaria em risco a arrecadação e geraria uma crise de credibilidade após os investimentos já feitos.”
A visão é compartilhada por Mateus Pontalti, sócio do Feitosa Rodrigues Pontalti. Ele lembra que os marcos da transição estão cravados na Constituição. O que existe, segundo ele, é margem para flexibilizar a adaptação dos contribuintes via regulamento infralegal:
- Ajuste em procedimentos de documentos eletrônicos;
- Cronogramas de implantação de exigências regulamentares;
- Regras de envio e validação de dados fiscais.
Em outras palavras: o trem partiu da estação; o que se discute agora é o conforto dos vagões, não a mudança dos trilhos.
Carta-manifesto e o peso do setor produtivo
Diante da incerteza, 98 empresários, tributaristas, economistas e políticos assinaram manifesto endereçado aos candidatos. O recado é direto: interromper o processo trará problemas para empresas, União, estados e municípios. Para os signatários, a reforma é uma conquista de Estado, não de governo.
Governadores: O termômetro da federação
Nos estados, 30 candidatos a governador se manifestaram; 21 apoiam a implementação. Em São Paulo, a disputa pelo Palácio dos Bandeirantes ilustra a complexidade federativa:
- Tarcísio de Freitas (Republicanos): Apoia a reforma após calcular ganhos para SP, mas expressa dúvidas sobre o funcionamento do Comitê Gestor (estados/municípios) e evita confrontar aliados que criticam o modelo.
- Fernando Haddad (PT): Reafirma o calendário e promete “abrir a caixa-preta” dos benefícios fiscais estaduais — aceno direto ao empresariado que cobra transparência.
O vácuo perigoso: Quase metade silencia
O dado mais inquietante do levantamento não é o que foi dito, mas o que não foi. 39 dos 80 candidatos monitorados (quase 50%) não tocaram no assunto até o início de setembro. Entre os “outros” presidenciáveis, propostas alternativas vão de tributação progressiva do consumo (PCB) a imposto sobre transações financeiras (Democrata), passando pela eliminação de impostos sobre consumo com taxação pesada do capital (PCO, UP).
O que observar daqui para frente
A transição federal começa em janeiro de 2027; a estadual/municipal, efetivamente, em 2029. O Comitê Gestor já opera a criação do novo sistema. Para o empresário e investidor, três variáveis definem o planejamento de curto prazo: a definição das alíquotas de referência (que dependem do fim das exceções), a regulamentação do cashback e a capacidade operacional das administrações tributárias de absorver a nova documentação eletrônica. Quem esperar o “ano que vem” para se preparar, chegará atrasado.
