A Armani iniciou negociações formais para vender uma fatia minoritária a três gigantes do setor, marcando o fim de meio século de controle absoluto do fundador. O desfecho definirá se a grife italiana consegue crescer sem a sombra de Giorgio Armani.
As conversas com LVMH, L’Oréal e EssilorLuxottica devem começar entre o fim de setembro e o início de outubro. O atraso em relação ao cronograma original — previsto para junho — reflete a complexidade de reestruturar um império que fatura €2,2 bilhões, mas encolheu dois anos seguidos.
O tabuleiro: 15% divididos entre três pesos-pesados
O testamento do estilista, morto em setembro de 2024 aos 91 anos, determinou a venda de 15% da companhia em até 18 meses. A solução em discussão prevê que cada um dos três investidores preferenciais fique com uma fatia equivalente, garantindo assento à mesa sem que nenhum assuma o controle.
- LVMH: interesse confirmado, mas dúvidas sobre encaixe no portfólio
- L’Oréal: prioridade é proteger o licenciamento de cosméticos até 2050
- EssilorLuxottica: foco em expansão médica nos EUA; investimento seria gesto de apoio
“Ninguém quer se lançar de imediato, mas ninguém quer deixar a oportunidade passar”, resume uma fonte próxima às negociações. A frase captura o dilema: entrar agora pode ser caro; ficar de fora pode ser irreversível.
Valor em disputa: a distância entre vendedor e compradores
A família Armani trabalha com uma avaliação próxima de €10 bilhões (cerca de R$ 59 bilhões). Os potenciais compradores, no entanto, veem o negócio entre €3 bilhões e €7 bilhões (R$ 17,7 bi a R$ 41,5 bi). A diferença de até 70% não é detalhe — é o nó que pode travar tudo.
Se nenhum dos três aceitar os termos, a alternativa prevista no testamento é a abertura de capital na bolsa. Um IPO exporia a empresa à volatilidade do mercado, mas livraria os herdeiros da negociação privada.
A reestruturação silenciosa antes da venda
Enquanto as conversas não avançam, o novo CEO Giuseppe Marsocci — veterano da casa promovido um mês após a morte do fundador — toca uma transformação profunda com apoio do Boston Consulting Group:
- Conselho reformulado com nomes de fora: Marco Bizzarri (ex-Gucci) e Federico Marchetti (fundador da Yoox)
- Simplificação da estrutura de marcas: Giorgio Armani, Emporio Armani, Armani Privé, hotéis, restaurantes e decoração
- Foco em categorias de margem alta, especialmente acessórios
Na frente criativa, a contratação de Dario Vitale — ex-Miu Miu — sinaliza a urgência de rejuvenescer a Emporio Armani, responsável por quase um terço da receita. A missão: torná-la “mais jovem, mais clara e mais relevante, sem perder o DNA”, nas palavras de um ex-colaborador.
O paradoxo dos números: receita cai, lucro sobe
O balanço de 2025 expõe a tensão do momento. A receita recuou 2,8% para €2,19 bilhões — segundo ano seguido de queda, após -5% em 2024. Mas o Ebitda subiu 3,2%, para €153 milhões, impulsionado por cortes de custos e pelo desempenho da linha de alta-costura Armani Privé.
O cenário macro não ajuda: o setor de luxo atravessa retração prolongada no consumo. Isso pressiona a avaliação e dá munição aos compradores para pressionar o preço para baixo.
O que observar daqui para frente
As próximas seis semanas serão decisivas. O início formal das rodadas em setembro/outubro testará se a LVMH topa pagar prêmio por uma marca com ticket médio mais baixo que suas grifes-estrela, se a L’Oréal aceita risco operacional além do licenciamento e se a EssilorLuxottica abre exceção à sua estratégia médica.
Mas a variável invisível pode ser a mais pesada: provar que a Armani cresce sem Giorgio. Como disse um ex-executivo do grupo, “o desafio não é vender a Armani. É mostrar que a Armani pode crescer sem Giorgio Armani.” O mercado estará atento a cada sinal de que a nova gestão consegue transformar legado em expansão — ou se a grife vira apenas mais um ativo financeiro em transição.
