Tecnologia

Escritórios de elite nos EUA correm para adotar IA, mas clientes exigem a conta

Advogado em escritório moderno usando IA holográfica, simbolizando adoção tecnológica e pressão por honorários menores
Escritórios de elite adotam IA, mas clientes exigem redução na cobrança por hora tradicional.

Os maiores escritórios de advocacia dos Estados Unidos estão exibindo suas novas ferramentas de inteligência artificial como troféus, mas a comemoração esconde uma tensão financeira: clientes corporativos querem que a eficiência tecnológica se traduza em honorários menores, e a cobrança por hora — pilar do setor — começa a rachar.

O choque entre vitrine tecnológica e a fatura do cliente

Recentemente, bancas de primeira linha como Sullivan & Cromwell, Cooley e Ropes & Gray lançaram sistemas próprios para análise de contratos, preparação de IPOs e due diligence. A promessa é reduzir tarefas de semanas para horas. A reação do mercado, no entanto, foi imediata: diretores jurídicos de grandes empresas começaram a questionar por que pagariam o mesmo preço por um trabalho executado em fração do tempo.

Neill Jakobe, vice-presidente do Ropes & Gray, resume o dilema: os clientes reconhecem a velocidade, mas perguntam “o que isso significa para nós?”. A resposta tem vindo na forma de pedidos de desconto agressivos, entre 20% e 30% sobre o valor total da fatura, segundo Kyle Poe, vice-presidente de inovação da Legora.

Como a IA virou arma de negociação

A pressão não é apenas retórica. Departamentos jurídicos internos estão usando seus próprios agentes de IA para auditar faturas recebidas. A dinâmica é simples e cruel:

  • O software identifica itens onde a automação poderia ter poupado horas humanas.
  • O cliente risca esses itens e exige o abatimento proporcional.
  • O argumento final: “Vocês anunciaram a ferramenta no press release, então usem-na”.

Jennifer Leonard, fundadora da Creative Lawyers, confirma que essa prática já é rotina em negociações de contratos de longo prazo.

A resistência das bancas e o risco do “impasse”

Os escritórios tradicionais argumentam que a IA ainda não economiza tanto tempo assim — ela apenas muda o mix de trabalho: menos digitação, mais análise estratégica. Além disso, alertam para o perigo de precificar mal um caso complexo se abandonarem a proteção da hora faturável.

Mas a concorrência não espera. Entram em cena os “escritórios nativos de IA”, como a Norm AI. Com aporte de US$ 260 milhões (avaliação de US$ 1,2 bilhão) de fundos como Khosla Ventures e Blackstone, eles oferecem preços fixos e uso intensivo de agentes autônomos, atraindo justamente os clientes insatisfeitos com o modelo antigo.

O modelo de negócio está com os dias contados?

Dados do Citi mostram que 35% dos 55 grandes escritórios consultados esperam mudar a cobrança por hora em até um ano; 65% projetam a mudança até 2035. Jeff Bleich, emissário da Anthropic, foi direto a uma plateia de advogados: “Não acho que a cobrança por hora seja a solução, e sabemos disso há muito tempo”.

Por enquanto, a receita dos grandes players cresce — alta de 12% no primeiro semestre com reajustes de dois dígitos nas horas, segundo o Wells Fargo. A transição, porém, é vista como inevitável nas tarefas previsíveis e repetitivas.

O híbrido que já funciona (e o que travar a revolução)

O caminho mais provável não é a extinção da hora, mas a bifurcação:

  • Preço fixo / projeto: due diligence, registros de marca, fechamento imobiliário, compliance padronizado.
  • Hora faturável: estratégia de litígio, negociação de M&A complexo, assessoria regulatória de alto risco.

Jon Ballis, presidente do Kirkland & Ellis, admite: “Grandes escritórios adotarão mais preços fixos e honorários fechados. Isso já está acontecendo”. O Ropes & Gray, por exemplo, passou a detalhar no início e no fim de cada projeto onde a IA foi aplicada, abrindo espaço para conversas sobre flat fees.

O que observar daqui para frente

A transição será gradual porque nenhum grande player quer ser o “primeiro a pular do penhasco” e testar a viabilidade financeira sozinho, nas palavras de Kyle Poe. O movimento atual é de preparação defensiva: estruturar dados, treinar modelos internos e criar comitês de precificação alternativa para estar pronto no dia em que o mercado exigir a virada de chave. Para o investidor ou gestor jurídico, o sinal claro é: contratos de retainer baseados apenas em horas faturáveis têm data de validade encurtada.