Saúde

O perigo de “validar” tudo: por que sua autoestima não deve depender de likes

Pessoa ansiosa olhando celular com ícones de curtidas flutuando, representando dependência de validação digital
A busca por likes torna a autoestima refém da aprovação alheia nas redes sociais.

O verbo “validar” saiu do consultório e invadiu reuniões, redes sociais e conversas de corredor, mas quase ninguém o usa com o significado técnico original. Esse desvio de linguagem está transformando relações profissionais em torneios de popularidade.

Ricardo Araújo Pereira disseca o fenômeno: a aprovação alheia virou moeda de troca para o valor próprio, e o resultado é uma fragilidade perigosa para quem decide e lidera.

Quando o jargão clínico vira arma de ego

Originalmente, validar na terapia significa reconhecer a legitimidade do sentimento do outro — “vejo que você ficou magoado”. Fora do divã, o termo foi sequestrado para significar “concordo com seu comportamento, por mais absurdo que seja”.

Essa confusão não é apenas semântica. Ela cria uma expectativa tóxica: a de que discordar é invalidar a humanidade do outro. No ambiente corporativo, isso dificulta feedbacks honestos e blindagem de más decisões sob a alegação de “falta de acolhimento”.

O colunista ilustra o absurdo: validar não é aprovar que alguém quebre uma garrafa na testa de outro. Mas, na prática, muitos exigem exatamente essa cumplicidade cega.

A armadilha da validação externa métrica

O problema central é a fonte da validação. Hoje, ela vem medida em curtidas, visualizações e comentários de perfis anônimos — o @crazyeagle23 da vida. Isso transforma a autoestima em refém de um algoritmo volátil.

Três consequências diretas para profissionais e líderes:

  • Decisão por aplauso: escolhas estratégicas são abandonadas se não gerarem engajamento imediato.
  • Fragilidade crítica: qualquer questionamento técnico é sentido como ataque pessoal.
  • Ciclo de reciprocidade vazia: valida-se quem nos valida, criando câmaras de eco em vez de redes de desafio intelectual.

Ted Bundy tinha fãs; Van Gogh morreu sem nenhum. Popularidade e mérito raramente andam juntos.

O paradoxo do validador invalidado

Existe uma lógica circular cruel: para que a validação do outro tenha peso, você precisa respeitar a fonte. Se você não valida o julgamento de quem te elogia, o elogio não cola.

Araújo Pereira resume: “Ninguém se sentirá validado pela validação de um inválido”. No mundo dos negócios, isso significa que aprovação de quem não tem critério técnico não constrói reputação sólida — só infla o ego temporariamente.

Não é arrogância; é filtragem. Aceitar input de quem não tem skin in the game é erro de gestão de risco.

O estágio superior: desconfiar da própria cabeça

Muitos se gabam de “não ligar para a opinião alheia”. O autor propõe um nível mais difícil: não se apegar nem à própria narrativa interna.

Nossos pensamentos são tão voláteis quanto a timeline do Twitter. Apegar-se a eles como verdades absolutas é o mesmo erro de buscar validação externa — só muda o juiz.

O que observar daqui para frente

A linguagem molda a cultura. Se sua equipe usa “validar” como sinônimo de “apaziguar”, a meritocracia já morreu. Substitua o termo por “compreender”, “considerar” ou “rejeitar com dados”.

Líderes que trocam validação por critério próprio calibrado tomam decisões impopulares hoje que viram cases de sucesso amanhã. Os que dependem de likes viram fidget spinners: barulhentos, onipresentes por um verão e, logo depois, esquecidos no fundo da gaveta.