O presidente Lula jantou com a nata do capitalismo brasileiro na noite de sexta-feira, mas o cardápio principal não era a comida. Em um hotel de luxo nos Jardins, cerca de 700 empresários, banqueiros e ministros ouviram o que pode ser o esboço da plataforma econômica para 2026.
A conversa nos corredores girou em torno de dois temas que mexem com o bolso do eleitor: o fim das bets e o reforço no Bolsa Família. Ninguém sabe ainda qual dos dois pesa mais na urna.
O camarote onde o poder sussurra
O evento, organizado pelo grupo Esfera Brasil e pelo Prerrogativas, tinha uma hierarquia visível. No salão principal, executivos de primeira linha: Milton Maluhy (Itaú), Gustavo Pimenta (Vale), Ivan Monteiro (Axia), Joesley Batista (JBS) e Rubens Ometto (Cosan).
Quando Lula chegou, as portas de um camarote “VIP Plus A+” se fecharam. Lá dentro, o vice Alckmin, o presidente do PT Edinho Silva e ministros como Alexandre Silveira, Alexandre Padilha e Fernando Haddad — este último, cotado para o governo paulista.
Um auxiliar presidencial revelou, em reserva, que a cruzada contra apostas online nasceu da indignação pessoal de Lula com o vício destruindo famílias. Não foi cálculo eleitoral, garantiu. Os empresários ao lado trocavam olhares céticos.
Discurso para a plateia, recado para as urnas
No microfone, Lula não pediu votos. Pediu cumplicidade.
- “Estabilidade fiscal é obrigação, não mérito” — aplausos.
- “Não se pode blefar na eleição” — salva de palmas.
- “Meu sonho é transformar o Brasil num país de classe média” — silêncio atento.
A frase que ecoou nos corredores depois: “Se o trabalhador ganhar mais, o empresário ganha mais”. Foi a síntese de uma tese keynesiana vestida de discurso de palanque: consumo interno como motor do lucro privado.
O abraço que valeu mais que mil discursos
Antes de subir ao palco, Lula atravessou o salão para abraçar Almino Afonso, 97 anos, ex-deputado constituinte. A imagem — o presidente de 78 anos curvado diante de um nonagenário — foi o único momento sem cálculo político da noite. Ou o mais calculado de todos.
Nos grupos de WhatsApp dos convidados, a foto do abraço circulou mais rápido que qualquer trecho do discurso.
O que os empresários levaram para casa
Três sinais claros, segundo quem estava lá:
- O governo não vai recuar na regulamentação das bets, por mais que o setor pressione.
- Haddad está, de fato, no páreo para São Paulo — e Lula o trata como herdeiro político.
- A retórica de “classe média” substitui a de “fome zero” como norte estratégico.
Mas houve um silêncio eloquente: ninguém tocou no nome de Tarcísio de Freitas. Nem para criticar, nem para elogiar. O governador de São Paulo, ausente, pairou sobre o jantar como o elefante na sala.
O que observar nas próximas semanas
A pesquisa Datafolha de sábado deve mostrar se o discurso da “não blefagem” colou. Mais importante: se o fim das bets — prometido para antes do segundo turno — chega a tempo de virar moeda de voto nas periferias onde o vício explode. Enquanto isso, o Itaú, a Vale e a JBS já ajustam suas projeções de cenário. O jantar acabou. A conta vem em 2026.
