O presidente Luiz Inácio Lula da Silva subiu ao palanque em Pernambuco e Alagoas nas últimas semanas e, contrariando a expectativa de correligionários, não citou os nomes das duas principais lideranças locais de centro-direita: a governadora Raquel Lyra (PSDB) e o prefeito de Maceió, JHC (PL). O silêncio deliberado expõe uma fratura na articulação política federal para 2026 e deixa no ar a dúvida: até onde vai a disposição do Planalto em tensionar relações com governadores e prefeitos que controlam máquinas eleitorais decisivas no Nordeste?
O gesto que falou mais alto que discursos
Em Caruaru, no agreste pernambucano, Lula participou de ato ao lado de ministros e deputados federais. A governadora Raquel Lyra, eleita com 58% dos votos válidos em 2022, não foi convidada para compor a mesa. Dias depois, em Maceió, o prefeito JHC — reeleito com 83% dos votos, o maior percentual entre capitais — também ficou fora do roteiro oficial. Em ambos os casos, a ausência não foi por agenda: foi escolha política.
Aliados do presidente relatam nos bastidores que a orientação partiu do próprio Lula. A avaliação é que ambos representam projetos de poder que disputarão espaço com o PT nas próximas eleições estaduais. Raquel Lyra já admite publicamente a intenção de concorrer à reeleição. JHC, por sua vez, é cotado para o governo de Alagoas ou até uma vaga ao Senado.
O custo imediato para a base aliada
A decisão frustrou deputados federais e estaduais do PSB, PCdoB e do próprio PT nos dois estados. Em Pernambuco, a bancada federal esperava ao menos um aceno institucional — uma menção ao “governo do estado” — para poder vender a ideia de harmonia nas bases. Não houve. Em Alagoas, vereadores e prefeitos do interior que apoiam JHC viram no episódio um sinal de que o Planalto pode trabalhar contra suas reeleições em 2024.
- Pernambuco: 25 deputados federais; PT tem 3 cadeiras.
- Alagoas: 9 deputados federais; PT tem 1 cadeira.
- Em 2022, Lula venceu nos dois estados no 2º turno: 63% em PE, 58% em AL.
Mas o efeito mais relevante aparece na montagem das chapas proporcionais para 2026.
O xadrez das proporcionais e o medo do isolamento
Sem o palanque do governador ou do prefeito da capital, partidos da base federal perdem capilaridade no interior. Em Pernambuco, Raquel Lyra controla a máquina estadual e tem influência direta em mais de 120 prefeituras. Em Alagoas, JHC elegeu a sucessora na capital e ampliou a base no sertão. Negar-lhes o microfone é, na prática, abrir mão de estrutura de campanha.
Dirigentes do PSB — partido do vice-presidente Geraldo Alckmin — tentam mediar. A legenda comanda prefeituras estratégicas nos dois estados e teme ficar espremida entre o fogo amigo do PT e a hostilidade dos executivos locais. A saída cogitada: manter Lula no topo da chapa majoritária, mas permitir palanques estaduais múltiplos, incluindo Lyra e JHC.
O que observar daqui para frente
O próximo teste ocorre nas convenções partidárias de julho e agosto. Se o PT insistir em candidaturas próprias ao governo nos dois estados — Marília Arraes em Pernambuco e Ronaldo Lessa em Alagoas —, o rompimento se formaliza. Caso contrário, a silêncio de Lula nos palanques de maio e junho terá sido apenas um aviso caro: no Nordeste de 2026, o presidente não abre mão de protagonismo, mesmo que precise queimar pontes que ele mesmo ajudou a construir.
