Economia

O segredo que ninguém conta: como ela escalou o negócio vivendo com câncer raro

Empresária Cibele Marchis trabalhando em laptop com equipamentos médicos, simbolizando resiliência ao liderar agência digital durante tratamento de câncer raro
Cibele Marchis manteve sua agência ativa por 3 anos enquanto enfrentava câncer na suprarrenal com bolsa de colostomia e traqueostomia

Aos 28 anos, a empresária Cibele Marchis faleceu 10 horas após a mãe, mas o legado não foi a tragédia: foi a recusa em paralisar a operação. Durante quase três anos de tratamento contra um câncer raro na suprarrenal, ela manteve a agência de marketing digital ativa, viajou, produziu conteúdo para 11,7 mil seguidores e fechou contratos mesmo com bolsa de colostomia e traqueostomia. Como uma líder mantém a estratégia quando o corpo impõe limites?

A resposta está na frase que ela fixou no perfil: “Fases pedem estratégias diferentes”. Não era motivação de Instagram; era gestão de risco aplicada à própria sobrevivência.

A métrica que importava não era o tumor

Diagnosticada em dezembro de 2023 e operada pela primeira vez em agosto de 2024, Cibele transformou o tratamento em um projeto com entregas, prazos e ajustes de rota. A sócia Eloá Righi resume a governança: “Ela não queria ser a Cibele que tem câncer, e sim a Cibele que trabalha, se diverte, vive e está com câncer”. A prioridade era a continuidade do negócio e a presença real na vida dos clientes e amigos.

Os números comprovam a execução:

  • 11,7 mil seguidores acompanhando a rotina real, não a doença;
  • Quase 3 anos de ciclos de quimioterapia, cirurgias e internações sem interromper a operação;
  • Dezembro de 2025: alta hospitalar após quadro crítico e, dias depois, viagem à praia com dispositivos médicos expostos.

O “pivot” de dezembro: quando a continuidade foi testada ao extremo

No fim de 2025, a família foi chamada ao hospital diante da iminência do óbito. A mãe, Maria Elisabete, jejuou 24 horas. Contra o prognóstico, Cibele recebeu alta. A decisão seguinte revela a mentalidade de fundadora: em vez de recuperação passiva, escolheu exposição controlada ao sol e ao mar, exibindo as marcas do tratamento como selos de validação da tese “Viver, vivendo”.

Dias antes da internação final, no sábado (19), recebeu amigas para vinho e petiscos. Trabalhou até a véspera da falência orgânica. A operação não parou; apenas mudou de servidor.

O risco sistêmico invisível: a sucessão não planejada

Enquanto Cibele gerenciava a própria crise com protocolos claros, o cenário macro mudou de forma brutal. A mãe, podóloga de 56 anos, descobriu um câncer de pâncreas agressivo ao investigar uma suposta pedra na vesícula. Diferente do caso da filha — crônico, monitorado, com “roadmap” médico —, o da mãe colapsou em dias, exigindo morfina e internação emergencial.

O desfecho expõe a fragilidade de estruturas centradas em uma única pessoa:

  • Cibele faleceu às 16h da quinta-feira (24);
  • Maria Elisabete faleceu à 1h58 da sexta-feira (25), sedada, sem saber da perda da filha;
  • O pai/tio perdeu esposa e filha única em um intervalo de 600 minutos.

Não houve tempo para transição de poder, inventário de senhas ou passagem de bastão. O “ônibus” passou por cima da sucessão.

O que observar daqui para frente: lições de governança para fundadores

A história de Cibele não é sobre heroísmo; é sobre arquitetura de resiliência. Ela separou a identidade da doença da identidade do negócio, mas o fim trágico e simultâneo da mãe revela o ponto cego: a dependência da figura central.

Para o empresário que lê isto, a implicação prática é imediata:

  • Documente o “como fazer” das tarefas críticas — não apenas o “o que fazer”. Cibele executava; quem executa na ausência dela?
  • Teste a operação “offline” do fundador — tire férias reais, desligue o celular por 72h. O negócio gira?
  • Seguro de pessoa-chave e pacto de sucessão não são burocracia; são a única garantia de que o ativo sobrevive ao operador.

Cibele provou que é possível entregar resultado em modo de guerra. O que ela não teve tempo de construir — e a mãe não pôde ensinar — foi a paz do pós-guerra para o negócio. O próximo trimestre dirá se a estrutura aguenta sem o general.