Economia

O segredo do algodão baiano que dobrou a aposta do agro em 2025…

Vasta plantação de algodão na Bahia com colheitadeiras modernas, simbolizando recorde de 1,83 mi toneladas em 2025
Bahia atinge recorde histórico de produção de algodão com 1,83 milhão de toneladas na safra 2025.

A Bahia consolidou-se como o segundo maior produtor nacional de algodão em 2025, com 1,83 milhão de toneladas e um salto de 23,2% em apenas um ano. O valor da produção atingiu R$ 7,85 bilhões, ultrapassando o cacau e ficando atrás apenas da soja. Mas o volume recorde esconde uma transformação muito mais profunda: a lavoura virou uma fábrica de dados.

Para a safra 2025/26, a projeção da Abapa aponta para mais de 1 milhão de toneladas apenas no estado — o maior resultado da história. Até meados de setembro, 80% da colheita já estava no barracão. O que explica esse salto não é apenas área plantada, mas uma revolução silenciosa que começa no laboratório e termina na bolsa de valores.

A genética que entrega 500 arrobas por hectare

Há duas décadas, a média no Oeste baiano girava em torno de 300 arrobas/hectare. Hoje, fazendas de ponta batem 500 arrobas. A cultivar FiberMax FM 945STP, por exemplo, tem potencial genético declarado de 406 arrobas de algodão em caroço.

O segredo, segundo a pesquisadora Mirian Nogueira (Ufob), não é buscar um único atributo. A variedade ideal precisa combinar:

  • Rendimento de fibra mínimo de 35%;
  • Estabilidade de produção entre safras;
  • Resistência a ramulária, nematoides e complexo de lagartas;
  • Resiliência a solos arenosos e chuvas irregulares.

O melhorista Murilo Barros (Fundação Bahia) alerta: tecnologias transgênicas que controlavam pragas-chave já perdem eficiência. A corrida genética é permanente.

O operador virou gestor de sistemas

Jolismar Wagner opera colheitadeiras há 25 anos. Antes, mil hectares levavam 90 dias. Hoje, a mesma área leva 20 a 25 dias. A cabine virou um centro de controle: telas mostram produtividade em tempo real, umidade, vazão e falhas de plantio georreferenciadas.

“Hoje você tem que ter o mínimo de estudo para interpretar o que a máquina, os sensores e os códigos estão falando”, resume Wagner. A tendência é autonomia total: um profissional monitorando múltiplas frentes simultaneamente. O ganho salarial e a qualificação da mão de obra tornaram-se vetores de desenvolvimento regional, segundo o produtor Júlio Busato.

Precisão cirúrgica: drone aplica só onde precisa

Em 500 hectares, um levantamento com drone revela que o estresse hídrico ou a falha de estande concentram-se em 15% da área. Henrique Maleiros (Hm Pulverização) explica: a aplicação direcionada economiza defensivo, reduz deriva e preserva inimigos naturais.

Mas a tecnologia exige novo letramento: planejamento de voo, meteorologia, vazão, tamanho de gota, cobertura. “Tecnologia não substitui conhecimento agronômico. Amplia a capacidade de enxergar o campo”, define Daniel Holanda, diretor da Fundação Bahia. O Manejo Integrado de Pragas (MIP) deixa de ser conceito e vira rotina orientada por mapas de calor.

Rastreabilidade: o QR Code que vale prêmio no contrato

Produzir bem não basta. O comprador internacional exige prova de origem. Cada fardo baiano carrega um QR Code (etiqueta SAI) vinculado ao programa Algodão Brasileiro Responsável (ABR). Alessandra Zanotto, presidente da Abapa, resume: “É como se cada fardo seguisse com uma identidade. Relacionamos a fibra a responsabilidades sociais, ambientais e econômicas”.

Essa “identidade digital” virou diferencial de precificação. Antes de analisar micrômetro ou resistência da fibra, o trader já sabe a fazenda, o talhão e o manejo. Para Paulo Schidt, a Bahia é referência mundial nesse protocolo.

Quando Nova York dita o preço na porteira da fazenda

O algodão baiano é commodity global. O preço na Bahia oscila com estoques na China, safra nos EUA, juros do Fed e fluxo de fundos em Chicago. Zanotto cita semanas em que a referência abriu num patamar e fechou noutro, alheia à safra local.

O desafio logístico escala na mesma proporção. A safra 2025/26 deve exportar mais de 470 mil toneladas. A Abapa pressiona para escoar pelo Porto de Salvador, encurtando o trajeto até Santos e internalizando a cadeia de serviços (transporte, armazenagem, bancos, seguros) no estado.

O que observar daqui para frente

A próxima fronteira não é produtividade bruta, mas estabilidade econômica por hectare. Pesquisadores correm contra variabilidade climática, fitonematoides e resistência de pragas. A inteligência artificial já calcula adubação e risco climático, mas o agrônomo Ricardo Atarassi avisa: “A IA assume tarefas, mas a decisão final exige visão global de quem entende o sistema”.

O jogo virou: vence quem transforma dados em decisão mais rápido que o mercado muda de humor. O algodão continua branco. A estratégia, porém, ficou colorida, digital e global.