Economia

Bets, agronegócio e segurança: o que os presidenciáveis sinalizaram ao mercado na sexta (25)

Presidenciáveis brasileiros discursam sobre apostas, agronegócio e segurança econômica
Candidatos convergem em taxar bets e propor seguro rural, sinalizando prioridades ao mercado.

A sexta-feira (25) de campanha revelou convergências inesperadas entre adversários: três candidatos defenderam o fim ou a taxação pesada das apostas online, enquanto o agronegócio ganhou proposta concreta de seguro rural. Para quem acompanha o risco Brasil, os sinais vão além do palanque.

O dia teve agendas esvaziadas — quatro dos treze candidatos não divulgaram compromissos públicos —, mas as falas dos principais nomes desenharam um mapa de prioridades econômicas que deve pautar os próximos meses.

O consenso silencioso contra as bets

Luiz Inácio Lula da Silva (PT), Augusto Cury (Avante) e Flávio Bolsonaro (PL) usaram palanques diferentes para atacar o mesmo alvo. Lula, no Recife, prometeu “acabar com as bets” citando endividamento e adoecimento de famílias. Cury, em Boa Viagem, foi mais cirúrgico: defendeu taxação “concreta, grande”, comparando os atuais 12% do setor aos 18% dos alimentos e 32% de remédios e energia. Flávio Bolsonaro, no Rio, afirmou que proibirá “o jogo do Tigrinho e o cassino online” se eleito.

O movimento coincide com a entrada em vigor do bloqueio de operadoras não autorizadas e a determinação de devolução de saldos a apostadores, anunciadas pelo governo na mesma data. O mercado já precifica impacto direto na arrecadação e no consumo das classes C e D.

Agronegócio: renegociação e seguro climático

Ronaldo Caiado (PSD) concentrou a agenda em Goiás — Quirinópolis, Itumbiara, Catalão e Goiânia — e apresentou a proposta mais estruturada do dia para o setor. Defendeu renegociação de dívidas capaz de “resgatar o setor” e a criação de seguro rural para transferir do produtor o risco de eventos como o El Niño previsto para 2026.

A fala mira uma dor real: a safra 2023/24 teve quebras expressivas no Centro-Oeste, e o endividamento rural bateu recorde histórico acima de R$ 500 bilhões. Qualquer desenho de seguro público-privado mexe com balanços de tradings, cooperativas e bancos de desenvolvimento.

Segurança pública como ativo eleitoral

Flávio Bolsonaro (PL) escolheu a formatura de praças da PM fluminense para declarar “guerra ao crime organizado” e posicionar a polícia como peça central para “devolver as ruas ao povo”. O discurso alinha-se à pauta de endurecimento penal que tem tração no eleitorado de centro-direita e repercute em debates sobre custos de segurança privada para empresas.

No mesmo Rio, Edmilson Costa (PCB) foi à roda de conversa em Seropédica e a debate sobre moradia do MNLM, mantendo a agenda no campo dos direitos sociais e da política externa — condenou o que chamou de genocídio em Gaza.

O vazio de agenda e o que ele diz

Leonardo Avalanche, Samara Martins (UP), Wilson Grassi (Democrata) e Clariana Barão (DC) não tiveram compromissos públicos. A ausência não é detalhe: em campanha presidencial, dias sem exposição custam recall e sinalizam estrutura organizacional frágil. Para analistas de risco político, a capacidade de manter agenda diária é proxy de solidez partidária e acesso a recursos.

O roteiro do interior mineiro

Romeu Zema (Novo) e Renan Santos (Missão) cruzaram Minas Gerais. Zema fez rádio em Extrema e Cambuí, almoçou com apoiadores em Ouro Fino — roteiro clássico de consolidação de base no segundo maior colégio eleitoral do país. Renan Santos adicionou Franca (SP), Uberaba e Uberlândia, desenhando eixo SP-MG que concentra PIB industrial e agro.

Hertz Dias (PSTU) ficou em Belo Horizonte: Santa Casa, Mercado Central, PUC e bairros. Discurso centrado no piso salarial da educação e carreira docente — pauta que pressiona contas estaduais e municipais.

O que observar nas próximas semanas

  • Regulação das bets: a implementação do bloqueio e a devolução de saldos testam a capacidade do Estado de fazer valer a lei 14.790/2023; judicialização é certa.
  • Seguro rural: a proposta de Caiado exige modelagem atuarial, subsídio orçamentário e aprovação no Congresso — acompanhe o PLS 237/2023 e a LDO 2025.
  • Agendas de fim de semana: sábados e domingos costumam concentrar atos de massa; a comparação de público entre candidatos vira termômetro de capilaridade.
  • Debates televisionados: a presença de Rui Costa Pimenta (PCO) em programas de grande audiência (Bacci, PlayTV) indica estratégia de visibilidade fora do horário eleitoral.

O calendário eleitoral de 2026 ainda está no começo, mas a sexta-feira mostrou que saúde financeira das famílias, risco climático no campo e segurança urbana já formam o tripé de demandas que qualquer candidato competitivo terá de endereçar com números, não só slogans.