Cultura

Sem braços, ele tirou a CNH dirigindo com os pés: a jornada que começou numa bicicleta adaptada

Reiner Jesus Martins dirigindo carro adaptado com os pés, demonstrando autonomia ao volante
Reiner, 20 anos, conquistou a CNH dirigindo exclusivamente com os pés após vida de adaptações criativas.

Reiner Jesus Martins, de 20 anos, conquistou a Carteira Nacional de Habilitação dirigindo exclusivamente com os pés — mas a verdadeira história começa muito antes, numa bicicleta sem guidão construída pelo padrinho. Como um jovem que nasceu sem os dois braços transformou limitações em autonomia plena?

A resposta passa por décadas de adaptações criativas, uma família que recusou a vitimização e um processo burocrático que ainda exclui muitas pessoas com deficiência.

A primeira engenharia: uma bicicleta sem guidão

Aos 5 anos, Reiner ganhou do padrinho uma bicicleta única: sem guidão convencional, a direção era controlada pelo tronco e a frenagem, puxando o pedal para trás. A invenção artesanal permitiu algo que parecia trivial — andar de bicicleta como qualquer criança.

“Meu padrinho é muito inteligente, desenvolve várias coisas do nada”, conta Reiner. A bicicleta segue guardada como símbolo da primeira grande independência física. Foi o protótipo de uma lógica que definiria sua vida: o corpo encontra o caminho quando a ferramenta não existe.

Autonomia como método, não como meta

A preparação começou no pré-natal. A mãe, ao descobrir a condição, buscou instituições como AACD e APAEs antes mesmo do nascimento. Desde os primeiros meses, terapias focaram em descobrir como o próprio corpo podia realizar tarefas, não em adaptar o mundo ao redor.

Resultado: Reiner aprendeu a escrever, comer, escovar dentes e se vestir usando pés, queixo, boca e tronco. “Hoje, para mim, meus pés são como as mãos”, resume.

A filosofia familiar era direta:

  • Ninguém estará ao seu lado o tempo todo
  • A autonomia é obrigação, não favor
  • Curiosidade e preconceito são oportunidades de diálogo

Num ônibus, quando uma criança o chamou de “sem braço”, a orientação materna foi responder com nome e convite: “Meu nome é Reiner. Qual é o seu? Quer ser meu amigo?”

O obstáculo invisível: burocracia e escassez de veículos adaptados

Da bicicleta ao carro adaptado, o salto levou mais de uma década. O processo da CNH iniciou no fim de 2023: exames, junta médica do Detran, aulas práticas em veículo com adaptação específica no laudo.

O maior entrave não foi a habilidade — Reiner já dirigia trator na fazenda da família —, mas encontrar um carro adaptado disponível para aulas. Ele precisou ir a Pará de Minas (MG), distante de Lavras, onde cursa Agronomia na UFLA.

“Poderia melhorar na acessibilidade, na informação e no preparo dos profissionais. Um processo mais simples facilitaria que mais pessoas com deficiência conquistassem essa autonomia”, avalia.

A aprovação e o que muda na prática

No dia 5 de agosto, o papel com “aprovado” provocou choro imediato. “Até chorei de emoção”, admite.

A conquista reescreve a logística de vida: durante a infância, tratamentos em outras cidades exigiam ônibus, pois o pai trabalhava e a mãe não dirigia. Agora, o deslocamento deixa de depender de terceiros.

O que observar daqui para frente

O caso expõe duas frentes urgentes: a padronização de veículos adaptados para autoescolas e a capacitação de examinadores e instrutores para avaliar candidatos com deficiência sem viés de incapacidade. Enquanto cada processo for uma exceção negociada caso a caso, a autonomia continuará sendo privilégio de quem tem rede de apoio, criatividade familiar e persistência acima da média.

Reiner prova que o corpo se adapta — pés viram mãos, tronco vira guidão. A pergunta que fica é se o sistema estará pronto para acompanhar.