O Banco Genial sabia que o empresário Antônio Carlos Freixo Júnior e a Entre Investimentos respondiam a processo da CVM por operações fraudulentas quando a estrutura para comprar a Terrana foi montada. Mesmo assim, o financiamento seguiu adiante. A revelação consta nos autos da terceira fase da Operação Carbono Oculto, deflagrada pelo Gaeco de São Paulo.
O que torna o caso ainda mais sensível é a identidade dos verdadeiros compradores. Segundo o Ministério Público, a distribuidora de combustíveis acabou nas mãos de Roberto Augusto Leme da Silva — o “Beto Louco” — e Mohamad Hussein Mourad, o “Primo”, apontados como cabeças de um esquema bilionário do PCC no setor. A pergunta que fica: até onde a cadeia de compliance falhou?
O rastro do dinheiro: R$ 20 milhões em conta de passagem
A investigação mapeou o fluxo com precisão cirúrgica. Em dezembro de 2024, a Entre Investimentos depositou R$ 20 milhões em uma conta da Usina Itajobi aberta na Credihome Sociedade de Crédito Direto. Dias depois, o valor migrou para o fundo Radford — peça central da engrenagem financeira.
O Radford, até agosto de 2024 administrado pela Ruby Capital (ligada à Altinvest), passou para a gestão do Banco Genial. Sob a nova administração, o fundo aplicou em CDBVs emitidos pelo próprio Genial. O banco, por sua vez, emprestou às holdings Berna e Branson, abertas em nome de Paulo Narcélio Simões do Amaral, identificado como “interposta pessoa” na aquisição.
O juiz que autorizou as buscas classificou a relação como “circular”: o dinheiro que financiou Berna e Branson estava aplicado no Radford, cujo único cotista era a Usina Itajobi — empresa atribuída ao grupo de Beto Louco e Primo. O recurso saiu do bolso dos investigados, deu a volta e voltou para comprar a Terrana.
O passado que o compliance encontrou — e não impediu
O processo da CVM não era novidade. Tramitava há anos e apurava manipulação de cotas do Brazil Realty FII. Freixo era diretor responsável pela Entre; Daniel Vorcaro, diretor do então Banco Máxima (hoje Master) e responsável pela Viking Participações. O banco havia subscrito cotas do fundo.
A área técnica da CVM propôs a condenação de todos por operações fraudulentas. Houve três rodadas de tentativas de acordo:
- 2022: Freixo ofereceu R$ 200 mil; Entre, R$ 300 mil. Master, Vorcaro e Viking propuseram R$ 1 milhão conjunto. Rejeitado.
- Dezembro de 2023: Entre subiu para R$ 4,95 milhões; Freixo, R$ 2,475 milhões. Master, Viking e Vorcaro ofereceram R$ 13,86 milhões. Novo veto do Colegiado.
- Setembro de 2024: Julgamento final. Multas: Freixo (R$ 5 mi), Entre (R$ 10 mi), Vorcaro (R$ 20 mi), Banco Master (R$ 12,5 mi), Viking (R$ 10 mi). Cabe recurso com efeito suspensivo.
Todos os nomes acima aparecem também na investigação da Terrana. A coincidência não passou despercebida aos promotores.
Outros elos: Duvale, escritório de advocacia e um FIDC
Relatórios de inteligência financeira anexados ao inquérito mostram que a Entre Investimentos recebeu R$ 32,48 milhões da Duvale Distribuidora no mesmo período. Desse total, R$ 2,84 milhões seguiram para o escritório Garcia Peres Advogados, citado como responsável por parte da estrutura societária da compra.
A empresa também figura como cotista do Rover FIDC, cujos ativos incluíam notas comerciais de empresas vinculadas a Beto Louco e Mohamad. Para o Gaeco, a Entre atuou na lavagem de recursos da organização criminosa. Importante: a conclusão ainda é objeto de apuração e não representa condenação nesse caso específico.
A versão do Banco Genial e o que muda agora
Em nota, o Genial confirma que Humberto Tupinambá — diretor à frente das operações — foi afastado dos processos decisórios e destituído em maio de 2026. O banco afirma ter fornecido espontaneamente todos os documentos sobre o fundo Radford, Berna e Branson ao Gaeco, além de ter comunicado as operações ao COAF.
A instituição diz ter atuado dentro das normas com as informações disponíveis à época, mas admite ter instaurado Inspetoria interna, revisado a governança de crédito e contratado especialistas externos para aprimorar controles. Após a deflagração da operação, renunciou à administração do Radford.
O que observar nos próximos capítulos
Três frentes correm em paralelo e merecem atenção de quem acompanha o mercado de capitais e o setor de combustíveis:
- Recursos na CVM: As multas de setembro podem ser suspensas se os condenados recorrerem ao Conselho de Recursos do Sistema Financeiro Nacional. O prazo corre.
- Desdobramento penal: A Operação Carbono Oculto mira a ocultação de beneficiários finais. Se comprovado o dolo do Genial em prosseguir sabendo do risco, a exposição regulatória e reputacional escala.
- Efeito sistêmico: A estrutura Radford → CDBV → empréstimo a holdings → compra de ativos replica padrões vistos em outros casos de lavagem via fundos de investimento. Reguladores podem endurecer regras de know your customer para fundos de crédito privado.
Para investidores e gestores de risco, o caso expõe uma falha crítica: compliance que detecta o risco, mas não tem poder de veto ou não é acionado a tempo. A lição prática? Processos de onboarding e monitoramento contínuo de contrapartes precisam ter dentes — não apenas caixas de seleção.
