David Ellison, herdeiro da fortuna da Oracle, acaba de fechar a aquisição da Warner Bros. Discovery por US$ 111 bilhões, consolidando o controle de dois dos mais antigos estúdios de Hollywood sob a bandeira da Paramount Skydance. Aos 43 anos, ele deixa de ser o “investidor ingênuo” que a indústria zombava em 2006 para se tornar o magnata mais poderoso do entretenimento global. O que ninguém previa é como essa concentração de força vai redefinir as regras do jogo para quem produz, distribui ou investe em conteúdo.
O acordo, destravado na segunda-feira (21) após acordo com 12 estados americanos, carrega uma dívida líquida projetada de US$ 79 bilhões. O fechamento é esperado para daqui a duas semanas, segundo e-mail interno enviado por Ellison aos funcionários.
De “garoto da conta” a César de Hollywood
A trajetória é atípica. Em 2015, a GQ o rotulou como “O Garoto que Paga a Conta do Filme”. Hoje, ele acumula cargos que nem Bob Iger, lenda viva da Disney, juntou: controlador majoritário (77,5% das ações com voto), CEO e produtor ativo. Gerry Cardinale, da RedBird Capital e conselheiro da Paramount, resume: “É a primeira vez desde Walt Disney que uma família comanda um grande estúdio com essa gestão direta”.
O novo império abriga ativos que moldam a cultura pop global:
- Cinema: Batman, Harry Potter, Missão: Impossível, Top Gun, Star Trek.
- TV & Streaming: HBO, CNN, CBS News, MTV, Paramount+, Max (ex-HBO Max).
- Animação: Bob Esponja, produções da DC e Warner Animation.
O preço do poder: dívida, cabo e concorrência
Críticos como Joseph M. Singer, ex-executivo de estúdio, alertam para o endividamento e a perda de empregos decorrente da fusão. A campanha “Block the Merger”, apoiada por milhares de profissionais e pelo Sindicato dos Roteiristas (WGA), classificou o negócio como ameaça ao jornalismo independente e à democracia.
Além do passivo, Ellison herda desafios estruturais urgentes:
- TV a cabo encolhendo: Assinantes cancelam pacotes em massa, erodindo a base de receita histórica.
- Integração complexa: Promessa de sinergias de US$ 6 bilhões enquanto funde culturas corporativas distintas.
- Guerra do streaming: Dois serviços (Paramount+ e Max) contra Netflix e YouTube, donos da atenção do público.
- Bilheteria fraca: Warner (6º lugar) e Paramount (7º) somam apenas 10% do mercado doméstico em 2026, contra 45% de Universal e Disney juntas.
Concessões políticas e o fantasma do antitruste
Para vencer a resistência de procuradores-gerais democratas, Ellison cedeu. Comprometeu-se a lançar no mínimo 30 filmes por ano durante cinco anos, injetar US$ 1,5 bilhão extras em produção nacional e criar um conselho autônomo para blindar a independência editorial da CNN e da CBS News. Laços familiares com a administração Trump — incluindo um jantar “em homenagem à Casa Branca” em abril — alimentaram desconfianças políticas que só aumentaram a pressão regulatória.
Mesmo assim, nada o freou. Em 13 meses, ele comprou a Paramount (US$ 8 bi), ultrapassou a Netflix na disputa pela Warner e derrubou uma barreira legal interestadual. A comparação com Michael Corleone, feita por agentes e produtores anônimos, reflete a percepção de Hollywood: um outsider que consolidou o controle com eficiência cirúrgica.
O que observar nos próximos trimestres
A promessa de 30 filmes anuais será o primeiro termômetro real da nova gestão. Se a produção não gerar receita suficiente para servir a dívida de US$ 79 bi, a estratégia de “dono-operador” vira risco sistêmico. Investidores e parceiros devem monitorar: a execução do corte de US$ 6 bi em custos sem matar a criatividade; a retenção de talentos-chave em meio à turbulência interna; e a capacidade de Ellison de transformar duas máquinas de legado em uma empresa nativa digital competitiva. O trono está ocupado. Agora, ele precisa provar que o reino gera lucro.
