Economia

O segredo do mercado de carbono: por que o Brasil pode perder bilhões

Floresta amazônica reflorestada com árvores nativas, representando créditos de carbono da Mombak
Reflorestamento na Amazônia financiado por créditos de carbono: a aposta bilionária da Mombak

O CEO da Mombak, Gabriel Haddad Silva, defende que o governo atue apenas como árbitro no mercado regulado de carbono, alertando que regras excessivas afugentam o capital estrangeiro essencial para o setor. A empresa, que já alocou R$ 1,5 bilhão em reflorestamento na Amazônia, teme que a burocracia trave uma indústria nascida para escalar.

Mas qual é o verdadeiro custo de uma intervenção mal calibrada para a economia brasileira?

O tamanho da aposta da Mombak

Fundada em 2021 por ex-executivos do Nubank, a companhia transformou pastagens degradadas no Pará em ativos climáticos. Os números impressionam: 27 mil hectares sob gestão previstos para o fim do ano, quase 15 milhões de mudas nativas plantadas e a aquisição da 14ª fazenda concretizada recentemente.

O modelo de negócio depende de uma equação simples: remoção de carbono de alta qualidade vendida a corporações globais. Hoje, 100% da receita vem do exterior. Clientes como Google, McKinsey, Climeworks e McLaren Racing já receberam os primeiros 21,7 mil créditos certificados — entregues dois anos antes do prazo.

O gargalo regulatório que trava bilhões

O Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE) virou lei em 2024, mas depende de regulamentação para funcionar. O mecanismo precifica a poluição de grandes empresas nacionais e prevê entrada em operação em até cinco anos. É nesse mercado regulado — e não no voluntário — que a Mombak projeta seu futuro.

“Precisamos de bilhões, não de centenas de milhões”, resume Silva. O mercado voluntário atual é pequeno, volátil e concentrado em big techs. A demanda por remoção já supera a oferta global somada de todos os players do setor.

  • Meta da Mombak: 27 mil hectares até dezembro
  • Capital alocado: R$ 1,5 bilhão
  • Primeiros créditos emitidos: 21,7 mil (validados pela Isometric)
  • Prazo regulatório: Etapas em 2027, 2029 e 2031

A polêmica da exportação de créditos

Em julho, o governo abriu consulta pública propondo teto de 50 milhões de toneladas de CO2e para exportação no período 2031-2035, além de limite de 50% dos certificados por projeto. O objetivo: evitar “fuga” de créditos que contariam para metas de outros países, e não para a NDC brasileira.

O setor reagiu mal. A argumentação é que o Brasil tem vantagem comparativa única — terra, clima, tecnologia e custo — para liderar a oferta global. Restringir a venda ao exterior equivale a fechar a torneira do investimento internacional.

Silva propõe regras caso a caso. Projetos que demandam capital intensivo e longo prazo de maturação não podem ser enquadrados na mesma régua de iniciativas de menor risco.

Crise de confiança vira vantagem competitiva

Escândalos de fraude em créditos de baixa qualidade abalaram o mercado global nos últimos anos. Paradoxalmente, isso fortaleceu a Mombak. A certificação pela Isometric — primeira a emitir protocolos de reflorestamento nativo — funcionou como selo de “risco zero de execução”.

Compradores migram de contratos futuros (promessas de entrega) para créditos já verificados. Muitas empresas assinaram compromissos há anos e não receberam nada. A Mombak entregou antes do prazo.

O que observar daqui para frente

A versão final da resolução de exportação ainda não saiu. O próximo presidente da República herdará a implementação escalonada do SBCE (2027, 2029, 2031). Silva aposta na continuidade: o caráter estratégico do setor transcende governos.

Dois movimentos merecem atenção imediata: a diversificação da base de clientes além do setor de tecnologia — já em andamento para reduzir volatilidade — e a velocidade da regulamentação. Cada mês de indefinição é capital que migra para Colômbia, Indonésia ou Congo. O Brasil tem a floresta, a ciência e a empresa. Falta apenas a regra do jogo clara.