O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, confirmou ter sido intimado a depor como testemunha no inquérito que apura irregularidades no Banco Master. A oitiva está marcada para o início de outubro, embora a data exata não tenha sido divulgada. O chamado ocorre em meio a uma teia de conexões entre ex-dirigentes da autarquia e o banqueiro Daniel Vorcaro.
Além de Galípolo, a Polícia Federal convocou o ex-presidente do BC Roberto Campos Neto, o dono do BTG Pactual, André Esteves, e o diretor de fiscalização Aílton de Aquino. O cerco se fecha sobre servidores que teriam vazado informações sigilosas em favor do Master.
O fio que puxa a meada
Dois ex-gestores da autoridade monetária estão no centro das investigações: Paulo Sérgio Neves de Souza, ex-diretor de Fiscalização, e Belline Santana, ex-chefe de Supervisão Bancária. Segundo o inquérito, ambos teriam atuado para passar dados sobre a fiscalização do regulador diretamente a Vorcaro. As defesas negam qualquer favorecimento.
Paralelamente, a Controladoria-Geral da União (CGU) conduz desde março um Processo Administrativo Disciplinar (PAD) que pode resultar na expulsão dos dois do quadro funcional do BC, caso a culpa seja comprovada.
Novos elos: pagamentos a parentes de servidores
Mensagens extraídas do celular de Vorcaro revelaram pagamentos do Master a empresas ligadas a familiares de atuais funcionários do Banco Central. O caso mais recente envolve a LR Consultoria, de Leonardo Eyer Harris, irmão de Ricardo Eyer Harris, chefe de gabinete do diretor de regulação Gilneu Vivan.
- Valor identificado: R$ 120 mil a receber pela LR Consultoria
- Período: 2025
- Vínculo: Irmão de servidor com acesso a decisões regulatórias
Ricardo Harris afirmou ter comunicado a alta administração do BC sobre o contrato do irmão e negou participação em decisões relacionadas ao Master. Galípolo defendeu a presunção de inocência e classificou o episódio como distinto dos demais.
O caso Calviño e os R$ 3 milhões
Outro nome que surge é João André Calviño Marques Pereira, ex-chefe do departamento de Regulação do Sistema Financeiro entre abril de 2018 e janeiro de 2024. A JGM Solutions, empresa dele, recebeu R$ 3 milhões do Banco Master no ano passado, segundo declaração à Receita Federal.
Calviño pediu licença do BC em março de 2024 e foi exonerado do cargo de auditor em junho de 2025. Ele sustenta que os pagamentos começaram em agosto de 2025, já fora da autarquia.
O que observar daqui para frente
O depoimento de Galípolo em outubro pode esclarecer o fluxo de informações entre a cúpula do BC e o Master durante a gestão anterior. A PF deve cruzar os testemunhos com as mensagens apreendidas e os registros de pagamentos. Enquanto isso, o PAD na CGU segue seu rito próprio, com potencial para afastar servidores antes mesmo do desfecho criminal. Para o mercado, o sinal de alerta permanece: a integridade da supervisão bancária está sob escrutínio direto das autoridades policiais e de controle interno.
