Um novo índice revela que França, Alemanha e Reino Unido figuram entre as sete nações mais vulneráveis à coerção econômica de Pequim no planeta. A distância geográfica não serviu de escudo: a exposição europeia supera a de muitas nações do Indo-Pacífico. O dado contraria a intuição de que apenas países em desenvolvimento estariam sob risco.
O estudo, conduzido por pesquisadores da Universidade Nacional de Taiwan em parceria com think tanks alemães, ranqueou 184 países. A Coreia do Sul lidera a lista global, mas o bloco europeu concentra a maior densidade de economias avançadas no topo da tabela. Para quem toma decisão de investimento ou cadeia de suprimentos, o recado é direto: a “desrisking” anunciada desde 2019 surtiu efeito apenas modesto.
Por que democracias ricas estão no alvo
O modelo computacional cruzou comércio, investimento direto, laços militares e instrumentos de soft power — como Institutos Confúcio. O peso maior coube ao estoque de investimento estrangeiro direto (IED). O resultado mostra que regimes democráticos, com mercados abertos e Estado de direito, oferecem mais alavancas de pressão do que autocracia fechadas.
Thorsten Benner, diretor do GPPi, resume o dilema: governos ocidentais precisam aprender a usar sua própria influência sobre Pequim e aceitar custos de curto prazo para defender interesses estratégicos. A alternativa, segundo ele, é a submissão a uma ordem econômica centrada na China.
O caso russo e a aceleração forçada
A Rússia aparece como a nação europeia mais exposta, impulsionada pela guerra na Ucrânia. A fatia das exportações russas para a China no PIB saltou de 1,6% (2013) para 5,4% (2023). Essa dependência acelerada cria um precedent perigoso: em momentos de crise, a substituição de parceiros tradicionais por Pequim eleva o poder de barganha chinês exponencialmente.
Onde a Europa reduziu — e onde aumentou — a dependência
Nem todo o continente segue a mesma trajetória. O índice aponta divergências claras desde 2019:
- Queda de exposição: Reino Unido, Noruega, Suíça e Suécia. A Suécia fechou todos os Institutos Confúcio em 2020 após atrito diplomático.
- Alta de exposição: Irlanda e Espanha. O estoque de IED chinês na Irlanda atingiu quase US$ 20 bilhões em 2025, focado em farmacêutica e tecnologia. As importações espanholas da China quase dobraram no mesmo período.
A fatura da independência estratégica
Um cálculo da EY-Parthenon divulgado este ano dimensiona o desafio: UE, EUA e Reino Unido precisariam injetar US$ 23,6 trilhões até 2050 para eliminar a dependência chinesa em setores críticos como indústria e tecnologia. O número equivale a cerca de R$ 122 trilhões — superior ao PIB combinado de várias grandes economias.
Enquanto o capital não chega, Pequim testa seus instrumentos. Em 2025, restrições à exportação de ímãs de terras raras levaram fábricas de veículos nos EUA e na UE à beira da paralisação. A medida foi resposta direta a tarifas de 145% impostas pela gestão Trump. A trégua comercial atual vigora até janeiro, mas a demonstração de força ficou registrada.
O que observar daqui para frente
Três variáveis ditam o cenário dos próximos trimestres: a renovação (ou não) da trégua tarifária sino-americana em janeiro; a capacidade europeia de coordenar controles de exportação e triagem de investimento; e a disposição de Pequim em usar gargalos de minerais críticos como moeda de troca. Para o decisor de negócios, a lição prática é mapear quais insumos e mercados da sua cadeia estão no topo desse índice — e desenhar alternativas antes que a coerção vire ordem de parada de linha.
