Economia

O risco de US$ 11 bi: SoftBank emite ‘high yield’ para segurar OpenAI

SoftBank e OpenAI: emissão de títulos high yield de US$ 11 bilhões para financiar parceria de IA
SoftBank emite US$ 11 bi em títulos high yield para financiar aposta na OpenAI.

O SoftBank acaba de colocar no mercado uma das maiores emissões de títulos de alto risco da história recente: US$ 11 bilhões para financiar a fatia final de sua aposta na OpenAI. A operação testa o apetite dos investidores por dívida high yield em big tech e empurra a alavancagem do grupo para perto do limite autoimposto. O preço sai na quinta-feira (24), mas a demanda já superava US$ 8 bilhões antes do lançamento oficial.

Rendimento de dois dígitos e fila de investidores

A oferta combina US$ 10 bilhões em dólares e 1 bilhão de euros, com vencimentos escalonados entre 3,5 e 7,5 anos. As conversas iniciais sinalizam yields entre 9% e 10% ao ano — prêmio substancial sobre o patamar investment grade que domina as captações do setor em 2024.

Executivos, incluindo o CFO Yoshimitsu Goto, percorreram Nova York na semana passada para vender o papel. O sindicato reúne Citi, Goldman Sachs, JPMorgan e Morgan Stanley. A forte procura inicial sugere que o mercado aceita correr o risco de crédito em troca de exposição indireta à revolução da inteligência artificial generativa.

A engenharia financeira por trás da aposta na IA

Essa emissão não nasce do zero. Ela substitui a terceira perna de um empréstimo-ponte de até US$ 40 bilhões contratado no início do ano com bancos como o Mizuho. O cronograma original previa três aportes na OpenAI: abril, julho e outubro.

  • Parcela 1 e 2: já pagas com o bridge loan de curto prazo.
  • Parcela 3 (outubro): agora financiada por dívida de longo prazo no mercado de capitais.
  • Sobra: US$ 10 bilhões remanescentes da linha-ponte serão cancelados após o closing.

Em meados de setembro, o grupo quitou US$ 25,9 bilhões dessa ponte e alongou o perfil de endividamento. A emissão atual fecha o ciclo, trocando capital de giro caro por funding definitivo.

O limite da alavancagem e o cheque de US$ 280 bilhões

A estratégia expõe a tensão entre a ambição de Masayoshi Son e a disciplina de balanço. O SoftBank impôs a si mesmo um teto de 25% na relação dívida/valor dos ativos — limite que admite poder furar temporariamente.

Do lado da OpenAI, a conta é assustadora: a startup projeta consumir quase US$ 280 bilhões até 2030 apenas em capacidade computacional. Cada rodada de financiamento exige cheques maiores de parceiros estratégicos. O ecossistema gira em torno de Nvidia, Oracle e da própria infraestrutura de data centers do SoftBank, como a SB Energy, que recebeu US$ 1 bilhão em janeiro para expandir a rede física que roda os modelos.

O que observar daqui para frente

O fechamento da operação em outubro dirá se o mercado continua disposto a financiar a conta da IA a taxas de dois dígitos. Dois gatilhos merecem monitoramento contínuo: a evolução da marcação a mercado do portfólio do SoftBank — que dita a margem de manobra para novas alavancagens — e a capacidade da OpenAI de converter o investimento em receita recorrente antes que o ciclo de capex aperte a liquidez de toda a cadeia. Quem tem exposição a papéis de risco de grandes emissores de tecnologia deve acompanhar o spread dessa emissão como termômetro para as próximas janelas de captação.