A principal associação do setor de apostas no Brasil racha justamente quando o governo federal se prepara para anunciar duras restrições, possivelmente ainda esta semana. O Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR) enfrenta uma debandada articulada nos bastidores, enquanto o Palácio do Planalto sinaliza o veto aos cassinos online — o famoso “jogo do tigrinho”.
A insatisfação mira a gestão de Carlos Lima, presidente desde junho. Cinco fontes do setor descrevem uma postura “passiva” e “atrasada” na defesa dos interesses das grandes operadoras. O estopim foi a iminência do pacote de medidas do governo Lula, que promete mudar as regras do jogo de forma drástica.
O ultimato do Planalto e o medo do veto total
Auxiliares diretos do presidente Lula tratam o endurecimento como iminente. A proibição dos cassinos online é a medida mais temida, pois atinge a vertical de maior faturamento e engajamento das plataformas. Some-se a isso o histórico recente: durante a Copa do Mundo, a enxurrada de publicidade forçou o Ministério da Fazenda a impor alertas obrigatórios sobre dependência em todos os anúncios.
O cenário atual exige articulação política agressiva. Nos bastidores, a avaliação é que o IBJR tem “chegado atrasado” nas rodadas de negociação e informação em Brasília.
Conversas com o rival e o plano B
A tensão escalou a ponto de representantes do IBJR procurarem Plínio Lemos Jorge, presidente da Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL), entidade concorrente. O objetivo: avaliar uma migração em bloco ou a criação de uma nova frente única.
A iniciativa não prosperou — por enquanto. O IBJR nega conhecimento de qualquer movimento para criar nova entidade. No entanto, o racha expõe uma fratura exposta na governança do setor regulado.
Dois perfis, uma disputa de poder
O contraste entre os líderes das duas entidades define o momento:
- Carlos Lima (IBJR): Vem de fora do setor (ex-Ibrac, cachaça, e IRelGov, relações governamentais). Foi contratado para ser “independente”, mas críticas internas dizem que lhe falta o perfil combativo necessário agora.
- Plínio Lemos Jorge (ANJL): Atuante, conhecido por defender agressivamente os interesses comerciais das associadas.
Enquanto Lima adota tom conciliador, o mercado cobra trincheira. A sensação entre associados é a de que a entidade deixou de ser uma trincheira para virar um observatório passivo.
Quem está em cada lado do ringue
A composição das entidades revela o peso econômico em disputa:
- IBJR: Bet365, Betano, Betsson, Flutter (Betfair, BetNacional), SportingBet.
- ANJL: Ana Gaming (7K, Cassino), Stellar Gaming (EstrelaBet — dissidente do IBJR), Superbet.
Um detalhe minimiza a criação de uma terceira entidade: a maioria desses grupos já atua em conjunto em mercados maduros na Europa. A estrutura global das holdings torna a fragmentação local ineficiente, mas não impede a pressão interna por troca de comando.
O bombeiro interno e o fantasma da saída
Para conter a dissidência, André Gelfi, representante da Betsson e ex-presidente interino do IBJR, assumiu o papel de articulador político ao lado de Lima. É ele quem tenta aparar as arestas e manter os gigantes sob o mesmo teto.
O antecessor, Fernando Vieira, deixou o cargo em setembro de 2025 rumo à Keeta. Sua saída abriu a porta para a chegada de Lima — e para a crise atual.
O que observar daqui para frente
A publicação das novas regras pelo Ministério da Fazenda é o gatilho imediato. Se o veto aos cassinos online se confirmar, a receita das associadas do IBJR sofrerá impacto direto e imediato. A capacidade de reação da entidade — ou a falta dela — ditará se a atual diretoria sobrevive ao trimestre. Para o investidor e o empresário, o sinal claro é: a autorregulação falhou no timing político. A próxima jogada será do Estado, e o tabuleiro muda nesta semana.
