Os credores da Braskem endureceram o jogo: querem que Petrobras e IG4 Capital injetem US$ 3 bilhões (cerca de R$ 15,4 bilhões) em capital fresco para destravar a reestruturação de uma dívida que supera US$ 11 bilhões. A contrapartida? Os detentores de títulos se recusam a colocar um centavo novo no negócio.
O impasse é total. A proposta anterior da petroquímica — que previa aporte de US$ 2 bilhões vindos dos próprios credores — foi rejeitada de imediato. Com o relógio correndo, a sombra da recuperação judicial volta a assombrar a maior produtora petroquímica da América Latina.
O muro entre as partes
O plano original da Braskem pedia que credores fornecessem US$ 2 bilhões. Desse total, US$ 1,25 bilhão seria usado para recomprar dívida existente com desconto de até 50% do valor de face. Os US$ 750 milhões restantes iriam para capital de giro.
A resposta do mercado foi um “não” retumbante. Os detentores de títulos exigem agora que os controladores assumam o risco integral, injetando US$ 3 bilhões sem que eles aportem recursos novos. A distância entre as propostas não é apenas financeira; é conceitual.
- Proposta Braskem: US$ 2 bi dos credores (recompra + caixa).
- Exigência Credores: US$ 3 bi dos acionistas (capital novo).
- Dívida total alvo: ~US$ 11 bi (R$ 56,5 bi).
Petrobras no centro do furacão
A estatal ampliou sua participação nas mesas de negociação nas últimas semanas. O objetivo declarado é evitar o pedido de recuperação judicial — cenário sensível por envolver uma empresa de economia mista como acionista controladora.
Porém, segundo fontes próximas às tratativas, a Petrobras não sinalizou disposição para assinar o cheque bilionário exigido pelos credores nos termos atuais. A IG4 Capital, outro pilar do controle, também mantém silêncio estratégico. Nenhuma das duas partes comentou publicamente a nova exigência.
O cronograma que não perdoa
A empresa ganhou fôlego em junho com uma medida cautelar de urgência. Em agosto, formalizou o pedido de recuperação extrajudicial. Agora, o calendário dita o ritmo:
- 9 de outubro: Prazo para acordo sobre termos (em pleno período eleitoral).
- Fim de novembro: Limite para apresentar plano definitivo com apoio de >50% dos credores.
Se a data de novembro passar sem consenso, o caminho judicial torna-se quase inevitável. O processo extrajudicial exige adesão majoritária; a judicial, não.
Raízes de uma crise prolongada
A fragilidade da Braskem não nasceu ontem. Anos de caixa corroído pelo desastre ambiental nas minas de sal em Maceió somaram-se a um ciclo prolongado de preços deprimidos no setor petroquímico global. Tentativas frustradas da Novonor (ex-Odebrecht) de vender sua fatia de controle travaram qualquer reorganização societária prévia.
A combinação criou uma “tempestade perfeita”: endividamento alto, geração de caixa fraca e incerteza sobre quem manda na empresa.
O que observar nas próximas semanas
Três variáveis vão ditar o desfecho até novembro. Primeira: a disposição real da Petrobras em converter influência política em aporte financeiro vinculante. Segunda: a capacidade dos credores de manterem a unidade do bloco sob pressão de prazos curtos. Terceira: o comportamento dos spreads dos títulos da Braskem no mercado secundário — termômetro direto da probabilidade de default.
Se a recuperação judicial for decretada, a governança da companhia muda de mãos. Para fornecedores, clientes e minoritários, o sinal de alerta está ligado: acompanhe a próxima assembleia de credores e eventuais comunicados da CVM sobre a oferta pública da IG4. O próximo capítulo define se a Braskem reestrutura ou se reestruturam a Braskem.
