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Qantas aposta em voos de 22h e projeta lucro de R$ 1,45 bi mesmo com combustível nas alturas

Aeronave Qantas A350 decolando para voo ultralongo de 22 horas Project Sunrise
Qantas aposta em frota A350 para rotas sem escalas de 22h e projeta lucro bilionário

A Qantas confirmou que suas rotas ultralongas sem escalas serão lucrativas mesmo com o preço do querosene de aviação pressionado pelo conflito no Oriente Médio. A CEO Vanessa Hudson projeta um incremento de 400 milhões de dólares australianos (cerca de R$ 1,45 bilhão) no resultado da companhia. A aposta repousa em uma frota nova e numa demanda que, segundo a executiva, “continua incrivelmente forte”.

Mas o cenário não é simples. Desde o início da guerra envolvendo o Irã, o custo do combustível quase dobrou, consumindo margens de empresas aéreas globais. Duas delas — Spirit nos EUA e airBaltic na Europa — já pediram recuperação judicial este ano. Como a australiana consegue prometer lucro onde outras veem prejuízo?

A engenharia por trás da aposta

O “Projeto Sunrise” nasceu há cerca de uma década. A peça central são 12 Airbus A350-1000 adaptados, com áreas de bem-estar para passageiros se alongarem durante voos que podem chegar a 22 horas. A primeira rota, Sydney–Londres, estreia em outubro de 2027. A segunda, Sydney–Nova York, deve decolar em meados de 2028.

Essas aeronaves substituem a necessidade de escalas técnicas para reabastecimento. O ganho operacional vem da eliminação de custos de pouso, taxas aeroportuárias intermediárias e tempo ocioso de tripulação e equipamento. A Qantas cobrará prêmio sobre as tarifas atuais — valores exatos ainda não foram divulgados.

O teste real: Perth–Londres

A confiança de Hudson não é teórica. A rota Perth–Londres, operada sem escalas há mais de oito anos, permanece a mais rentável da malha da companhia — mesmo com o barril de Brent próximo a US$ 100. “Mesmo com o preço do combustível tão alto quanto está, ainda é a rota de melhor desempenho em nossa rede”, afirmou a CEO.

Esse histórico serve de baliza para os novos voos. A diferença está na distância: Sydney–Nova York ultrapassa 16.000 km, exigindo configuração de assentos mais leve e gestão rigorosa de peso.

O efeito colateral da guerra

O conflito criou uma janela inesperada. Antes de fevereiro, cerca de metade do tráfego entre Europa e Austrália fazia conexão em hubs do Golfo — Dubai, Doha, Abu Dhabi. Com o espaço aéreo instável e a aversão de passageiros a escalas na região, a rota direta da Qantas ganhou atratividade imediata.

  • Impacto no caixa: A$ 610 milhões (R$ 2,22 bi) a mais na conta de combustível no ano fiscal.
  • Erosão de lucro: A$ 420 milhões (R$ 1,54 bi) evaporados mesmo após medidas de mitigação.
  • Projeção de lucro incremental do Project Sunrise: A$ 400 milhões (R$ 1,45 bi).

Hudson, contudo, diz receber bem o eventual retorno das concorrentes do Golfo. “Queremos isso, porque significaria o fim do conflito. Os preços do combustível se normalizariam e a capacidade voltaria.” Para ela, o lucro líquido seria maior num cenário de petróleo barato, mesmo com a concorrência restabelecida.

O que observar daqui para frente

Três variáveis definirão se a projeção de Hudson se materializa: a trajetória do Brent nos próximos 18 meses, a taxa de ocupação nas cabines premium (onde está a margem real) e a capacidade da Airbus de entregar os 12 A350-1000 no cronograma. Atrasos na certificação das áreas de bem-estar ou na configuração de tripulação para turnos de 22 horas podem empurrar a estreia para 2029.

Para investidores e gestores de travel corporativo, o sinal claro é: a aviação de ultralongo curso deixou de ser experimento e virou linha de receita. Quem negocia contratos globais deve já precificar a opção direta Sydney–Nova York a partir de 2028 — e monitorar se a promessa de “wellness a bordo” justifica o prêmio tarifário.