Executivos americanos afirmam que o atual ambiente de negócios supera o caos da pandemia. A diferença crucial? Desta vez, não há isolamento social — há uma engrenagem global quebrada em múltiplos pontos ao mesmo tempo.
A tempestade perfeita que atingiu o café da manhã
O CEO da Dilworth Coffee, Bryan Vojta, resume o cenário: uma safra brasileira desastrosa em 2024, tarifas de importação elevadas e, em seguida, a escalada do conflito no Irã somada a um Super El Niño. “Nunca vivemos um período de turbulência como este em três décadas”, diz ele.
O resultado prático é uma cadeia de suprimentos que funciona, mas com atrito e custo exponencialmente maiores. Os contratos futuros de café bateram recordes históricos, forçando a empresa a reduzir o planejamento de compras de 24 para apenas 3 a 6 meses.
O motor do problema: energia e rotas marítimas
Para Jack Buffington, da Universidade de Denver, a raiz é energética. O diesel dobrou de preço desde março, pressionado pela guerra no Oriente Médio e pelos ataques ucranianos a refinarias russas. Paralelamente, a logística marítima perdeu 15% da capacidade global este ano, segundo Ryan Petersen, CEO da Flexport.
Os desvios de rota contornando a África — para evitar houthis no Mar Vermelho e piratas no Golfo de Áden — alongam viagens e consomem mais combustível. A isso se soma a proibição russa de exportar diesel, retirando 12% da oferta marítima mundial.
Por que o fim da guerra não resolve a inflação
O governo Trump aposta que a vitória no Irã derrubará o petróleo “vertiginosamente”. Há precedente: em junho, a reabertura do Estreito de Ormuz fez a gasolina cair abaixo de US$ 4 o galão. Mas economistas alertam: os choques atuais já migraram para o núcleo da inflação.
- Inflação de serviços: subiu no último mês no maior ritmo desde abril; preços de serviços raramente recuam depois de subir.
- Clima adverso: tufões fecharam o porto de Xangai (maior do mundo) por duas semanas; atrasos persistem.
- Estrutura de custos: fretes e seguros elevados se incorporaram à formação de preços de toda a cadeia.
Pequenos negócios no limite da absorção
Sean Brownlee, CEO da Ravenox e ex-fuzileiro naval, define o momento: “Pequenas empresas absorvem custos até o último minuto. Agora a pressão é intensa”. A volatilidade é o inimigo invisível: volumes de venda que oscilavam 5% ao mês agora variam 20% para cima ou para baixo.
Sem caixa para estocar matéria-prima cara e com clientes sem renda extra para aceitar reajustes, as margens evaporam. A previsibilidade — ativo mais valioso para qualquer gestor — deixou de existir.
Covid vs. Agora: a volatilidade como nova norma
Na pandemia, a cadeia parou e depois se recuperou linearmente. Hoje, ela “começa, para, piora, melhora e piora muito de novo”, descreve Brownlee. A pesquisa mensal do Institute for Supply Management (ISM) capturou esse sentimento: líderes classificam o momento como “crise ainda maior e mais complicada”.
Vojta concorda: “A Covid foi assustadora. Isso aqui é mais estressante”. Sua equipe gasta horas em modelagens de preços que antes eram desnecessárias, tentando adivinhar por quanto tempo o diesel ficará acima de US$ 6.
O que observar daqui para frente
Mesmo com um cessar-fogo imediato no Irã, três variáveis independentes mantêm a pressão: a oferta restrita de diesel russo, a instabilidade climática nos grandes portos asiáticos e a persistência de atores não-estatais no Mar Vermelho. Para o empresário, o sinal claro é encurtar horizontes de planejamento, diversificar fornecedores regionais e preparar o caixa para uma volatilidade de preços que não tem data para acabar.
