Bruno Dantas deixou a presidência do Tribunal de Contas da União em setembro para comandar a Avibras, maior empresa de defesa e aeroespacial do Brasil, agora sob controle dos irmãos Batista. A nomeação sinaliza uma guinada agressiva rumo ao mercado externo.
O movimento pegou o setor de surpresa. Dantas tinha mandato no TCU até 2027 e era cotado para cargos de alta visibilidade no Judiciário. Em vez disso, escolheu uma empresa que, nos últimos anos, enfrentou recuperação judicial, atrasos em programas estratégicos e incerteza acionária.
Por que os Batista escolheram um ministro do TCU
A Globe Investimentos, veículo dos irmãos Joesley e Wesley Batista, concluiu a aquisição da Avibras em 2023. Desde então, a prioridade declarada é transformar a fabricante de mísseis e foguetes em uma player global. Para isso, precisavam de alguém com trânsito em Brasília, credibilidade institucional e experiência em gestão de grandes orçamentos públicos.
Dantas preenche os três requisitos. Foi ministro-substituto do TCU, secretário-geral da Presidência da República e presidiu o tribunal nos últimos dois anos. Conhece o rito de contratações governamentais, o funcionamento do Congresso e as exigências de compliance que travam exportações de material sensível.
O que a Avibras tem a oferecer hoje
Apesar dos percalços recentes, o portfólio da empresa permanece estratégico:
- ASTROS 2020: sistema de artilharia de foguetes já exportado para Malásia, Indonésia e Catar.
- Míssil MANSUP: antinavio de fabricação nacional, em fase final de qualificação pela Marinha.
- Vants Carcará e Falcão: plataformas de vigilância operadas pelo Exército e Força Aérea.
- Foguetes de treinamento e sondagem: base do programa espacial brasileiro em Alcântara.
A carteira de pedidos soma R$ 4,2 bilhões, segundo dados de agosto. O desafio é converter esse backlog em entregas no prazo — algo que a gestão anterior não conseguiu de forma consistente.
O fator internacionalização
O plano dos novos controladores passa por três frentes simultâneas. Primeira: destravar vendas para Oriente Médio, Sudeste Asiático e África, mercados onde o Brasil tem acordos de cooperação mas poucas entregas efetivas. Segunda: entrar em programas da OTAN como fornecedor de subsistemas — foguetes, avionica, propulsão. Terceira: usar a base de Alcântara como atrativo para joint ventures de lançamento orbital de pequenos satélites.
Dantas chega com a missão de abrir portas que exigem aval político e garantias soberanas. Seu último discurso no TCU, aliás, defendeu “maior agilidade nos controles prévios para não paralisar políticas públicas estratégicas”. A frase foi lida no setor como prenúncio de sua atuação na Avibras.
Riscos no radar
A transição não é isenta de armadilhas. A Avibras ainda negocia os termos finais da saída da recuperação judicial, homologada em 2022. Credores cobram cumprimento do plano de pagamentos, que prevê aportes de R$ 1,1 bilhão até 2026. A Globe já injetou cerca de R$ 600 milhões, mas o fluxo de caixa depende de liberações do Fundo de Defesa e de contratos do Programa de Aceleração do Crescimento.
Há também a questão da imagem. Os Batista carregam o histórico da J&F e do acordo de leniência de 2017. Embora a Globe seja estrutura separada, fornecedores estrangeiros e governos compradores fazem due diligence rigorosa. Dantas terá de demonstrar, na prática, que a governança da Avibras atende a padrões internacionais de integridade.
O que observar daqui para frente
Três indicadores dirão se a aposta funcionou. Primeiro: assinatura de pelo menos um contrato de exportação acima de US$ 200 milhões nos próximos 12 meses. Segundo: certificação da linha ASTROS 2020 para padrões da OTAN — processo que costuma levar 18 a 24 meses. Terceiro: manutenção do cronograma do MANSUP, com entrega das primeiras unidades à Marinha em 2025.
Se Dantas entregar dois dos três, a Avibras deixa de ser “empresa em recuperação” e passa a ser caso de estudo de turnaround em defesa. Se não entregar, a credibilidade dos Batista no setor estratégico ficará abalada justamente quando o governo federal prepara nova Política Nacional de Defesa. O próximo capítulo será escrito em reuniões de conselho, feiras internacionais e, sobretudo, no cumprimento de prazos que o setor público brasileiro costuma descumprir.
