Cultura

A única pizzaria do RJ no top 100 mundial: segredos que ninguém conta

A Bento Pizzeria, na Tijuca, acaba de entrar para a elite global: 70ª colocada no Top Pizza World 2026, único endereço carioca na lista. O mais impressionante? A casa tem apenas três anos de portas abertas.

O chef Pierluigi Russo, italiano radicado no Rio, revela por que a tradição napolitana fala mais alto do que o gosto local — e o que isso muda no seu prato.

Certificado que vale ouro (e poucos têm)

A Bento carrega o selo da Associazione Verace Pizza Napoletana (AVPN). Não é marketing: a entidade audita forno, farinha, fermentação, temperatura da massa e origem de cada ingrediente. No Brasil, pizzarias com esse aval se contam nos dedos.

Mais de 70% dos insumos vêm da Itália. Na Margherita clássica, o índice sobe para 99% — só o manjericão é nacional. O queijo é fior di latte, não muçarela comum. O forno elétrico, importado e certificado, mantém 400°C a 500°C. A pizza assa em 60 a 90 segundos.

Esqueça o garfo e a faca

Na Itália, quase nenhum restaurante oferece talheres para pizza. O chef ensina: pegue a fatia com a mão, dobre ao meio “como um sanduíche” e morda. Assim o recheio não escorre e você prova tudo de uma vez.

Outra regra: pizza não se compartilha. Tamanho único, sem opção “meio a meio”, sem fatias pré-cortadas. Cada pessoa pede a sua. “Pizza é um prato individual”, resume Luigi.

Margherita sem rodela de tomate? Exatamente

O que brasileiro chama de Margherita — com rodelas de tomate cru — para o chef “descaracteriza a pizza, deixa mais feia e com menos sabor”. A original leva apenas molho de tomate de qualidade, fior di latte e manjericão fresco. As rodelas, diz ele, são invenção tupiniquim.

O cardápio tem três versões: clássica, DOC (com búfala) e La Verace (búfala fresca colocada na saída do forno).

A pizza que não leva queijo — e tem 200 anos

Marinara: molho de tomate, orégano, lâminas de alho. Ponto. Nada de queijo. O nome vem dos marinheiros que a levavam em navios no século XVIII — conservava melhor sem laticínios. É a única do menu com orégano; nas demais, só manjericão fresco. “No Brasil abusa-se de orégano. Ele deixa a pizza mais feia e o sabor, agressivo”, critica o chef.

Custa R$ 49 — a mais barata da casa. E foi a favorita da equipe que testou o menu.

Nem azeite depois de pronta

“Ketchup só no McDonald’s. Azeite, só na hora de preparar. Depois de assada, vira gordura pura”, sentencia Luigi. A massa fermenta longamente em temperatura ambiente (20°C a 22°C) e é aberta 10 a 12 horas antes de ir ao forno.

O efeito prêmio nos números

  • Média de 150 pizzas/dia (fins de semana superam esse volume)
  • ~3.500 pizzas/mês
  • Clientela triplicou após o anúncio do Top Pizza World 2026
  • Quase 5 mil novos seguidores nas redes sociais em semanas
  • Pizza mais vendida: Bento (tomate, fior di latte, gorgonzola, calabresa artesanal, azeite picante)

O que observar daqui para frente

O reconhecimento internacional coloca a Zona Norte do Rio no mapa gastronômico global — e pressiona concorrentes a elevar o padrão. Para investidores e empreendedores do setor, o caso Bento prova que autenticidade certificada, processo rigoroso e recusa a adaptações “brasileiras” podem gerar diferenciação real e prêmio de mercado. A pergunta que fica: quantas casas estão dispostas a seguir o protocolo até o fim?