O Itaú Unibanco acaba de fechar a maior locação de escritórios da história brasileira: 91,4 mil metros quadrados no complexo Esther Towers, em São Paulo. O contrato de dez anos injetará R$ 1,17 bilhão nos cofres da Eztec e acomoda quase 10 mil postos de trabalho. A mensagem é clara — os grandes escritórios não morreram, apenas esperaram o momento certo para voltar a encher.
Mas por que um banco que devolveu espaços durante a pandemia agora gasta bilhões para voltar? A resposta está no calendário que já começou a correr.
O que muda para 80 mil funcionários a partir de 2027
A transição não será imediata, mas as datas já estão definidas. Superintendentes passam a exigir quatro dias presenciais por semana a partir de janeiro de 2027. Para o restante do quadro administrativo no regime híbrido, a regra de três dias semanais entra em vigor no primeiro trimestre de 2028.
Hoje, cerca de 40% dos mais de 80 mil colaboradores já atuam presencialmente — sobretudo em agências e funções operacionais. Os 60% restantes, majoritariamente no modelo híbrido, são o alvo direto da nova ocupação.
- 91,4 mil m² de área total locada
- 9.600 posições de trabalho criadas
- R$ 106/m² valor líquido do aluguel (após descontos e carências)
- 10 anos de contrato, prorrogáveis por mais 5
- R$ 1,5 bi valor de mercado do complexo
O gatilho que ninguém esperava: demissões em massa no remoto
Em setembro de 2025, o banco desligou mais de mil funcionários que atuavam em regime remoto ou híbrido. A justificativa oficial: “incompatibilidades” entre a jornada registrada nos equipamentos e a informada pelos empregados. Um mês depois, o CEO Milton Maluhy Filho foi direto: parte dos demitidos entregava desempenho “muito abaixo do exigido”.
O episódio expôs uma fratura silenciosa. Empresas descobriram que controle de produtividade à distância é mais caro e falho do que imaginavam. Uma diretora de RH do setor de óleo e gás resumiu o dilema em 2024: “Ninguém quer abrir mão do que considera um benefício. Mas quem paga o salário quer entrega. É óbvio que ninguém quer devolver prêmio de loteria.”
Não é só o Itaú — o movimento é global e setorial
O contrato das torres Esther não é um caso isolado. É o sintoma mais visível de uma reversão que atravessa continentes e setores:
- Amazon: retorno obrigatório cinco dias/semana, estendido ao Brasil
- JPMorgan Chase: presencial integral para todo o quadro
- Microsoft: três dias/semana a partir de setembro de 2025
- Google, Meta, Apple, Dell, Disney, Salesforce, BlackRock: restrições progressivas ao remoto
- Nubank: transição para dois dias/semana (julho/2026) e três dias (jan/2027)
- Vale e Petrobras: ampliação da presença física no Brasil
- UOL: fim do home office em plantões de fim de semana e feriados
David Vélez, fundador do Nubank, explicitou a lógica compartilhada pelos pares: cultura, pertencimento, inovação, coordenação e produtividade coletiva. Palavras que, até 2022, soariam retrógradas — hoje, são estratégia de sobrevivência.
O mercado imobiliário já precificou a volta
No Rio de Janeiro, a vacância de escritórios Triple A despencou. Em fevereiro, a escassez de grandes lajes forçava empresas a buscar prédios alternativos no Centro. Em julho, a região superou a Barra da Tijuca em absorção líquida. Edifícios antigos, antes “encalhados”, voltam a receber propostas.
O próprio Nubank prepara nova sede de grande porte no Centro carioca. O recado do mercado: quem esperou o “novo normal” definitivo perdeu a janela de negociação.
O que observar daqui para frente
O modelo híbrido não desaparecerá — funções específicas e setores nichados manterão flexibilidade. Mas a ideia de que grandes corporações abririam mão de seus ativos físicos provou-se uma aposta errada. Quando um único banco compromete mais de R$ 1 bilhão em aluguel para criar 10 mil estações de trabalho presenciais, o debate deixa o campo das opiniões e entra no balanço patrimonial.
Para quem lidera equipes, negocia imóveis ou planeja carreira: as regras do jogo mudaram. A frequência mínima tende a subir, a tolerância à baixa visibilidade caiu e o prêmio de loteria do home office integral tem data de validade. A próxima rodada de contratos imobiliários dirá se a curva acelera — ou se estabiliza nesse novo patamar de três a quatro dias presenciais.
