Meio Ambiente

O gigante eólico que nasceu sem subsídios e desafia a política alemã

Parque eólico offshore He Dreiht no Mar do Norte com turbinas gigantes operando sem subsídios
Maior parque eólico offshore da Alemanha, He Dreiht gera 960 MW sem subsídios estatais.

A Alemanha ligou nesta quinta-feira (17) as turbinas de “He Dreiht”, seu maior parque eólico offshore, capaz de abastecer 1,1 milhão de lares com 960 MW de potência. O detalhe que muda o jogo: é o primeiro empreendimento do tipo no país a operar sem um centavo de subsídio estatal. A conquista chega justamente quando Brasília — perdão, Berlim — sinaliza cortes drásticos nos incentivos a renováveis.

Localizado a 90 km da ilha de Borkum, no Mar do Norte, o ativo da EnBW custou 2,4 bilhões de euros. A viabilidade econômica depende exclusivamente de contratos de longo prazo (PPAs) fechados com gigantes como Fraport e Bosch. Mas a festa de inauguração teve tom de alerta.

O modelo que quebra a dependência do Estado

Durante anos, a expansão eólica alemã caminhou de mãos dadas com tarifas garantidas pelo governo. He Dreiht rompe esse ciclo. A EnBW assumiu o risco de mercado apostando na demanda corporativa por energia verde certificada. A Fraport, operadora do aeroporto de Frankfurt, e a Bosch, peso-pesado da indústria automotiva, travam o preço da energia por anos, dando previsibilidade ao investimento.

Esso movimento sinaliza uma transição estrutural: grandes consumidores industriais passam a atuar como “âncoras financeiras” de novos ativos renováveis. Para o investidor, a lição é clara: a solidez do offtaker (comprador) vale mais que a generosidade do subsídio.

O cenário político que gela novos projetos

Se o modelo contratual é a boa notícia, o ambiente regulatório é a nuvem no horizonte. A ministra da Energia, Katherina Reiche (CDU), propõe reduzir subsídios para solar e eólico onshore, defendendo novas térmicas a gás para estabilizar a rede. O argumento: a intermitência exige backup fóssil.

Do outro lado, o ministro do Meio Ambiente, Carsten Schneider (SPD), reafirma a meta de triplicar a capacidade offshore para 30 GW até 2030. O CEO da EnBW, Georg Stamatelopoulos, foi direto: a incerteza regulatória está paralisando decisões de investimento. “Vamos ignorar esses projetos ou deixá-los se arrastar?”, questionou.

Os números por trás da máquina

  • Capacidade instalada: 960 MW (64 turbinas)
  • Investimento total: € 2,4 bilhões (US$ 2,8 bi)
  • Abastecimento estimado: 1,1 milhão de residências
  • Modelo de receita: 100% PPAs corporativos (zero subsídio)
  • Principais offtakers: Fraport, Bosch

A localização a 90 km da costa reduz conflitos visuais e sonoros, mas eleva custos de transmissão e manutenção. A aposta da EnBW é que a economia de escala e a qualidade do vento no Mar do Norte compensem a distância.

O que observar daqui para frente

O próximo capítulo não será escrito no mar, mas no Bundestag. A disputa entre a meta de 30 GW (governo federal) e a revisão de subsídios (ministério da Energia) ditará o ritmo dos leilões futuros. Para quem aloca capital, o termômetro está na taxa de desconto aplicada a novos PPAs: se o prêmio de risco político subir, a viabilidade de projetos “merchant” ou híbridos cai.

Outro vetor: a resposta da indústria pesada alemã. Se mais players seguirem Fraport e Bosch travando energia verde de longo prazo, o offshore pode se tornar a primeira fonte renovável verdadeiramente “desestatizada” em escala industrial na Europa. O sinal de alerta está ligado; a oportunidade, também.