O pré-candidato ao Governo da Paraíba pelo DC, Pedro Coutinho, colocou na mesa uma meta agressiva: universalizar o saneamento básico em João Pessoa e nos outros 11 municípios da Região Metropolitana. A declaração, dada em entrevista à TV Cabo Branco, não se limita à coleta de esgoto; inclui a despoluição total de seis rios estratégicos que cortam a capital.
Para o setor produtivo, o anúncio acende um alerta: promessas dessa magnitude exigem bilhões em aportes e uma engenharia jurídica complexa. O que está por trás desse compromisso e como ele pode redefinir o mapa de oportunidades no estado?
O tamanho do desafio: 12 cidades e seis rios na mira
O plano não cita apenas a capital. A lista abrange todo o entorno metropolitano, o que multiplica a complexidade logística e financeira. No pacote de rios prometidos para “devolução à população” estão:
- Rio Jaguaribe
- Rio Sanhauá
- Rio Marés
- Rio Gramame
- Rio Cabelo
- Rio Cuiá
Historicamente, esses corpos d’água concentram cargas poluidoras industriais e domésticas. A recuperação ambiental, se executada, altera diretamente a valorização imobiliária das margens e a capacidade de captação hídrica para uso industrial.
O elefante na sala: de onde virá o dinheiro?
Universalizar saneamento no Brasil custa caro. O novo Marco Legal do Saneamento (Lei 14.026/2020) estabelece a meta de 99% de água e 90% de esgoto até 2033, mas condiciona o avanço à regionalização e à atratividade de capital privado via concessões e PPPs.
O discurso do candidato sinaliza intenção política, mas não detalha o modelo de financiamento. Para o investidor, a leitura obrigatória passa por três variáveis: a estruturação de blocos regionais viáveis, a tarifa módica necessária para sustentar contratos de longo prazo e a segurança jurídica para mitigar riscos regulatórios.
Impacto direto no ambiente de negócios
Não se trata apenas de infraestrutura sanitária. A ausência de coleta e tratamento de esgoto drena competitividade. Setores como turismo de orla, hotelaria, construção civil e indústria alimentícia arcam com custos ocultos: sistemas próprios de tratamento, licenças ambientais travadas e desvalorização de ativos em áreas não atendidas.
Se a meta de 100% sair do papel, o efeito cascata atinge a redução de doenças hídricas (menor absenteísmo trabalhista), a liberação de áreas para adensamento urbano legal e a entrada de novos players no mercado de resíduos e água de reúso.
O que separa a retórica da execução
Promessas de campanha costumam ignorar o gargalo da gestão contratual. A experiência recente em outras capitais mostra que a universalização exige:
- Contratos de programa ou concessões com metas intermediárias auditáveis;
- Saneamento das dívidas históricas das companhias estaduais;
- Integração com planos de drenagem e habitação para evitar “obras maquiadas”.
O compromisso com a despoluição dos rios Jaguaribe e Sanhauá, por exemplo, depende de interceptores de esgoto em bacias já adensadas — obras de alta interferência urbana e custo por metro linear elevado.
O que observar nos próximos meses
O empresário ou gestor que atua na Paraíba deve monitorar três sinais concretos após as eleições: a definição do modelo de regionalização (blocos de municípios), a publicação de editais de concessão com estudos de viabilidade econômica realistas e a destinação de recursos do Orçamento Geral da União (OGU) ou fundos estaduais para as obras de interceptoras prioritárias.
Sem esses movimentos, a promessa de “100% saneado” permanece no campo da intenção. Com eles, a Região Metropolitana de João Pessoa pode se tornar um case raro de alinhamento entre meta legal, vontade política e apetite de mercado.
