O banco Digimais, controlado pelo grupo Record do bispo Edir Macedo, alocou R$ 271,4 milhões em certificados de ações sem valor de mercado do extinto Banco do Estado de Santa Catarina (Besc). A operação, realizada por meio do fundo Betel, replica a estrutura usada pelo Banco Master para inflar balanços e captar recursos, segundo documentos da CVM obtidos pela CPI do Crime Organizado.
O montante equivale a 82% do patrimônio líquido da instituição, estimado em R$ 331 milhões no último balanço. A concentração de risco em ativos “podres” levanta dúvidas imediatas sobre a solidez real do banco e a transparência de seus demonstrativos financeiros.
O espelho da fraude do Master
A mecânica é idêntica à desvendada no caso do Banco Master, de Daniel Vorcaro. Fundos ligados à instituição compravam cártulas do Besc — papéis físicos que hoje têm apenas valor histórico, segundo o Tesouro Nacional — contabilizando-os por valores milionários.
Esses ativos inflados serviam de garantia para empréstimos vultosos e melhoravam artificialmente os índices de capital, permitindo a captação agressiva de CDBs no varejo. No Master, os valores declarados nessas cártulas superavam R$ 850 milhões.
O elo comum: a gestora Reag
Tanto o fundo Betel (Digimais) quanto os veículos do Master eram administrados pela Reag Investimentos. A gestora foi liquidada pelo Banco Central em janeiro deste ano por violação de normas do sistema financeiro.
O dono da Reag, João Carlos Mansur, negociou delação premiada com a PGR. Os papéis do Besc adquiridos pelo Betel vieram de dois fundos — SDG II e BB Claim — cujos beneficiários finais são os filhos de Mansur. O SDG II, inclusive, foi usado pelo Master para esconder R$ 5,4 bilhões em empréstimos.
Contradições no balanço e na fiscalização
Dados da CVM mostram que o Digimais era cotista único do Betel até janeiro. O fundo nasceu em abril de 2025 como “PNG International Bank”, mudou de nome em junho e manteve as cártulas do Besc na carteira até agosto, último dado disponível.
No entanto, o Betel não aparece no balanço do Digimais nem no conglomerado prudencial reportado ao Banco Central. Questionado, o banco afirma ter se desfazido do fundo em outubro de 2025 — data posterior ao último relatório da CVM (agosto) e ao próprio momento da consulta. A instituição não informou o valor recebido pela eventual venda das cotas.
- Patrimônio do Digimais (jun/2025): R$ 331 milhões
- Exposição no Betel: R$ 271,4 milhões (82% do PL)
- Ativo: Cártulas do Besc (valor de mercado ≈ zero)
- Gestor: Reag (liquidada pelo BC em jan/2025)
Investigação da PF mira precatórios e balanços
A Polícia Federal apura se o Digimais manipulava relatórios para simular solidez e assim acessar funding mais barato. Nesta quinta-feira (17), o banco divulgou prejuízo de R$ 581,4 milhões no primeiro semestre de 2025.
Além das cártulas, os investigadores focam na carteira de precatórios — títulos de dívidas judiciais contra o Estado. Os crimes sob suspeita incluem gestão fraudulenta, inserção de dados falsos em documentos contábeis e concessão de empréstimos vedados por lei.
O que observar daqui para frente
A discrepância entre a posição oficial do banco (saída em outubro) e os dados regulatórios (permanência em agosto) deve ser o foco imediato da CVM e do BC. Se confirmada a manutenção oculta do risco, a instituição pode sofrer sanções severas, incluindo intervenção.
Para investidores e contrapartes, o sinal de alerta é a replicação de um modelo já condenado pelo regulador. A liquidez real do Digimais e a qualidade de seus ativos de garantia precisam ser reavaliadas à luz desta exposição concentrada em papéis sem lastro econômico.
