A intenção de compra de carros eletrificados deu um salto de sete pontos percentuais em um ano: 71,4% dos brasileiros que ainda não possuem um modelo híbrido ou elétrico pretendem adotar a tecnologia na próxima troca. O dado vem de levantamento do Webmotors Autoinsights com 1,2 mil usuários do portal, mas esbarra em um limite de orçamento rígido.
Quase metade dos interessados (47%) não aceita pagar mais de R$ 100 mil. Esse teto expõe o dilema da indústria: a demanda explodiu, mas o poder de compra não acompanhou a tecnologia.
Híbridos lideram; rejeição derrete
Entre os que pretendem migrar, o híbrido é o favorito absoluto, com 39,9% da preferência. O 100% elétrico atrai apenas 8,9%, enquanto 13% ainda estão indecisos. O movimento mais forte, porém, está na queda da resistência: quem descarta qualquer eletrificação caiu de 23,9% para 15,6% em 2026.
O consumidor amadureceu. Deixa de ver a eletrificação como “carro do futuro” para tratá-la como opção racional de garagem.
O que move a decisão de compra
Quando questionados sobre os fatores decisivos, os entrevistados desenharam um perfil pragmático. O apelo ecológico aparece, mas não lidera:
- Custo-benefício: 72% (principal driver);
- Autonomia de rodagem: 43%;
- Reputação da marca: 37%;
- Sustentabilidade: 34%.
O recado para as montadoras é claro: o bolso fala mais alto que a consciência verde. A tecnologia precisa se pagar no dia a dia.
A barreira dos R$ 100 mil e a janela chinesa
A pesquisa revela a distribuição do orçamento máximo aceito:
- Até R$ 100 mil: 47%;
- R$ 100 mil a R$ 150 mil: 35%;
- Até R$ 200 mil: 14,3%.
Esse recorte explica o avanço meteórico de BYD e GWM. Elas oferecem híbridos plug-in flex (etanol, gasolina e eletricidade) dentro da faixa de volume do mercado. Marcas de volume tradicionais — Chevrolet, Honda, Renault, Volkswagen — ainda não têm portfólio completo nesse segmento.
Enquanto as legadas calibram lançamentos, as chinesas ocupam o vácuo com produto, preço e disponibilidade imediata.
Reputação ainda é moeda forte
O dado de 37% citando “reputação da marca” como critério relevante abre uma brecha estratégica. O consumidor não é cativo da novidade; ele troca de bandeira se a entrega for superior, mas valoriza histórico de pós-venda e rede de assistência.
Quem conseguir aliar custo competitivo abaixo de R$ 150 mil com a confiança de rede estabelecida tende a capturar a fatia dos indecisos (13%) e converter parte dos 15,6% ainda resistentes.
O que observar daqui para frente
O próximo gatilho de mercado não será a vontade de comprar — essa já está consolidada. A virada virá da oferta: a chegada de híbridos flex nacionais ou nacionalizados abaixo de R$ 120 mil. Se as tradicionais acelerarem a engenharia local para bater esse preço, a curva de adoção deixa de ser linear e passa a ser exponencial. Até lá, o jogo continua nas mãos de quem já tem produto na prateleira e preço na etiqueta.
