A economia argentina expandiu 2,0% no segundo trimestre frente a 2023, superando a projeção de 1,6% do mercado. O dado, divulgado pelo Indec, revela um motor de crescimento concentrado em poucos setores, enquanto a indústria sinaliza fraqueza.
O avanço anual esconde uma reversão relevante: na comparação com os três meses anteriores, o PIB encolheu 0,6%. É a primeira contração trimestral sob a gestão Javier Milei.
O motor vem do campo e das minas
Três pilares sustentaram a alta anual. O setor pesqueiro explodiu 45%, a mineração e pedreiras avançaram 16% e o agronegócio cresceu 7%. Juntos, compensaram o desempenho negativo da indústria.
- Pesca: +45% (base de comparação baixa em 2023)
- Mineração: +16% (projetos de lítio e petróleo em ramp-up)
- Agropecuária: +7% (recuperação pós-seca severa)
As exportações subiram 14% no período, enquanto as importações recuaram 9%, reflexo do câmbio apreciado e da demanda interna deprimida.
Indústria amarga queda de 2% e puxa freio
O setor manufatureiro registrou uma das contrações mais fortes entre as atividades principais. A queda de 2% expõe o custo do ajuste fiscal e da abertura comercial acelerada sobre a produção local.
Mas o efeito mais relevante aparece na dinâmica de curto prazo. O recuo de 0,6% na margem — dessazonalizada — quebra uma sequência de expansão iniciada no trimestre anterior.
O que o trimestre a trimestre revela
O PIB havia crescido 0,7% entre janeiro e março. A virada para território negativo sugere que o “choque” inicial de estabilização — corte de subsídios, desvalorização cambial e ajuste de preços relativos — esgotou seu impulso expansivo inicial.
A recomposição de salários reais ainda é incipiente. O consumo das famílias segue travado, limitando a recuperação cíclica do varejo e dos serviços domésticos.
Cenário fiscal e inflação: o pano de fundo
Os números chegam enquanto a inflação desacelera de forma expressiva frente aos três dígitos herdados no início do mandato. O superávit fiscal primário mantém-se como âncora da credibilidade externa.
Porém, a apreciação real do peso pressiona a competitividade. O “atraso cambial” tornou-se tema central nas rodas de economistas em Buenos Aires, ameaçando a sustentabilidade do superávit comercial observado no semestre.
O que observar daqui para frente
O mercado monitora dois vetores para o segundo semestre: a velocidade da recuperação do poder de compra e a entrada de divisas do agro na safra fina. A aprovação de reformas estruturais no Congresso — especialmente a trabalhista e a previdenciária — determinará se o crescimento anual de 2% vira tendência ou permanece um ponto fora da curva.
Para o investidor, o sinal é misto: solidez fiscal e externo de um lado, atividade doméstica enfraquecida e risco cambial do outro. A próxima leitura do Indec, em dezembro, dirá se o piso foi atingido ou se a recessão técnica se confirma.
