O Brasil sancionou a lei que zera impostos para equipamentos de data centers, mas o verdadeiro gargalo — energia firme e transmissão — continua sem solução. O resultado: projetos bilionários travados na fila de conexão.
A demanda por inteligência artificial explodiu e o país tem a energia renovável mais barata do continente. Falta, porém, a infraestrutura para entregá-la onde os servidores precisam.
O incentivo fiscal que não resolve o nó da rede
O Redata (Regime Especial de Tributação para Serviços de Data Center) elimina PIS/Pasep, Cofins e IPI na compra de hardware. É um sinal verde tributário para atrair hiperescaladores.
Especialistas classificam a medida como necessária, mas insuficiente. “O gargalo não está mais em aplicações, está em energia”, resume Márcio Aguiar, diretor da Nvidia na América Latina. Segundo ele, a infraestrutura — geração, transmissão e refrigeração — dita agora a escala dos projetos.
Consumo vai saltar 26% em apenas um ano
Projeções da Deloitte mostram a velocidade da curva de demanda global, que impacta diretamente o planejamento local:
- 2025: consumo estimado de 448 TWh;
- 2026: salto para 565 TWh (+26%);
- 2027: projeção de 702 TWh, com servidores de IA respondendo por mais da metade.
No Brasil, a EPE (Empresa de Pesquisa Energética) contabiliza pedidos de acesso que somam 56 GW — equivalentes a 20% de toda a capacidade instalada de geração do país hoje.
Por que a maioria dos 56 GW não sai do papel
Thiago Prado, presidente da EPE, admite que grande parte dos pleitos é especulativa. O desafio é dimensionar a expansão da rede sem superinvestir em ativos ociosos.
O descompasso de prazos é brutal: uma linha de transmissão leva cinco anos para ser licenciada e construída. Um data center de grande porte fica pronto em três. Sem sincronia, o investidor chega com os servidores e encontra o ponto de conexão vazio.
Além disso, a queda simultânea de um consumidor desse porte pode disparar distúrbios de frequência com risco de apagões regionais — o que exige reforços de estabilidade que não existem hoje.
Concentração no Sudeste cria novo risco sistêmico
Atualmente, 96% da capacidade instalada de data centers está no Sudeste, segundo Rogério Gachet, CEO da Eletronet. A região já opera no limite de escoamento de energia e fibra óptica.
A descentralização virou imperativo estratégico. Nordeste e Centro-Oeste oferecem terra, sol, vento e custos menores. Falta, porém, malha de transmissão robusta e backbones de fibra com latência competitiva.
“A preocupação hoje é melhorar latência e resiliência”, diz Gachet. A Eletronet, controlada pela Axia, aposta em novas rotas ópticas para interiorizar a conectividade.
O que observar nos próximos 18 meses
Três variáveis vão ditar o ritmo real de expansão no Brasil:
- Leilões de transmissão: a ANEEL precisa antecipar certames focados em corredores que atendam clusters de data centers fora do eixo Rio-São Paulo.
- Contratos de energia de longo prazo: PPAs (Power Purchase Agreements) indexados a renováveis dão previsibilidade ao investidor e viabilizam o funding bancário.
- Regulação de resposta à demanda: mecanismos que remunerem data centers por reduzir carga em picos de estresse do sistema reduzem o risco de apagões e abrem receita extra.
Se o governo e o ONS (Operador Nacional do Sistema) alinharem esses vetores, o Brasil deixa de ser “potencial” e vira destino efetivo de capital global de IA. Caso contrário, a lei vira letra morta e os servidores seguem para Chile, Colômbia ou Estados Unidos.
