Economia

O fim do home office virou o jogo imobiliário: capital explode 50% e interior desaba…

Prédios comerciais em São Paulo com gráficos de alta de escrituras e queda no interior
Capital paulista bate recorde de escrituras enquanto interior despenca 57% com fim do home office.

A capital paulista bateu recorde histórico de escrituras em 2025, enquanto cidades que brilharam na era remota veem transações derreterem até 57%. A proximidade do escritório voltou a ditar onde o dinheiro gira.

O movimento não é uma simples volta ao passado. Dados dos cartórios mostram uma reestruturação profunda: quem comprou longe achando que o home office era definitivo agora enfrenta custos ocultos de deslocamento e decisões corporativas irreversíveis.

O número que assusta quem apostou no interior

Foram 90.402 escrituras lavradas na capital no ano passado, alta de 49,6% sobre 2020. No mesmo período, municípios símbolo da fuga urbana registraram quedas vertiginosas nas transações:

  • Itupeva: -57%
  • Cotia: -41%
  • Indaiatuba: -36%
  • Atibaia: -31%
  • Peruíbe: -30%
  • Itu e Itatiba: -28% cada

O vice-presidente do Colégio Notarial do Brasil (CNB/SP), Andrey Guimarães Duarte, alerta: a queda de escrituras não significa êxodo populacional, mas sim o fim de um ciclo de expansão excepcional. O mercado entrou em nova etapa, distinta do pré-pandemia.

Por que a balança pendeu de volta para o centro

A equação mudou quando as empresas passaram a exigir presença física. Estudo da Robert Half revela que profissionais de engenharia e construção vão ao escritório 4,8 dias por semana. No setor de serviços, a média é 3,3 dias.

Pesquisa WeWork/Offerwise confirma: 63% trabalham presencialmente e, para 79%, a decisão vem da empresa, não da escolha. Na plataforma Gupy, vagas híbridas e presenciais já superam as 100% remotas.

O custo dessa volta não é apenas tempo no trânsito. Segundo a WeWork, 65% citam o deslocamento como principal desvantagem e 53% relatam alta nas despesas diárias. A gerente Beatriz Kawakami define como “custo silencioso”: não aparece no contracheque, mas corrói a qualidade de vida.

O dilema das empresas: cultura versus retenção

Por que insistir no presencial se 52% dos talentos trocariam de emprego por menos flexibilidade? A Robert Half mapeou os motivos dos gestores:

  • 68%: fortalecimento da cultura organizacional
  • 63%: melhora na comunicação e colaboração
  • 59%: necessidade de integração e supervisão
  • 50%: crença no ganho de produtividade
  • 34%: diretriz da liderança global

O risco é real: 54% dos gestores admitem que a rigidez eleva a rotatividade. O segredo para adesão, segundo especialistas, não é o modelo em si, mas a transparência e a consistência das regras.

Nem todo interior perdeu: o refúgio da logística

Enquanto destinos turísticos e de condomínios fechados devolvem ganhos — o interior turístico fechou 2025 no mesmo patamar de 2020 —, cidades com vocação industrial e logística seguem em alta. Taboão da Serra lidera com +73% no período, seguida por Bauru (+42%), Barueri (+26%), Paulínia (+19%) e Limeira (+14%).

O litoral manteve-se 20% acima de 2020, mas estagnou desde 2023. A lição: a demanda migrou de “qualidade de vida remota” para “acesso estratégico a polos de emprego”.

O que observar nos próximos trimestres

O cenário aponta para uma polarização. Imóveis em bairros próximos a hubs corporativos (Brooklin, Faria Lima, Vila Olímpia) tendem a manter liquidez e valorização. Já ativos em cidades-dormitório distantes, sem infraestrutura de transporte de massa, correm risco de vacância prolongada.

Para investidores e gestores de portfólio, o indicador-chave deixa de ser a taxa de juros isolada e passa a ser o índice de presencialidade exigido pelas maiores empregadoras da região. Contratos de locação de longo prazo em áreas periféricas devem prever cláusulas de revisão atreladas a políticas de retorno ao escritório. Quem ignorar essa variável precifica risco invisível.