A JBS e a Viva Holding anunciaram nesta terça-feira (15) a criação da JBS Viva, maior processadora de couro do planeta. A operação une ativos das duas companhias, mas esconde condições que ainda podem atrasar o início das atividades. O que está realmente em jogo?
O comunicado enviado à CVM confirma a fusão das unidades de couro da JBS S.A. — incluindo subsidiárias internacionais — com a estrutura produtiva e de insumos químicos da Viva. O resultado imediato é a consolidação de um líder global incontestável, posição que a JBS já detinha sozinha desde a aquisição da uruguaia Zenda, em 2013.
Como fica a gestão da nova empresa
A paridade é a regra central do acordo. Cada sócia deterá 50% do capital e indicará três conselheiros de administração. A divisão do comando executivo, porém, foi negociada com precisão cirúrgica:
- JBS nomeia o Presidente do Conselho e o Diretor Financeiro (CFO);
- Viva escolhe o CEO e o Diretor de Operações (COO).
Essa arquitetura de governança sinaliza que, embora o capital seja simétrico, o controle estratégico-financeiro permanece com os Batista, enquanto a operação diária e a visão de mercado ficam a cargo da Viva.
Os ativos que ficaram de fora do pacote
Nem todo o império de couro da JBS entra na nova empresa. A exclusão de ativos estratégicos revela onde a holding dos irmãos Batista prefere manter controle direto. Estão fora:
- Unidades na Alemanha, Uruguai, México e Texas (EUA);
- Toda a cadeia de colágeno e gelatina de ambas as partes;
- Ativos da Viva não relacionados ao processamento de couro.
Essa “limpeza” no perímetro do acordo sugere foco na eficiência do curtimento e acabamento, deixando sinergias industriais específicas — como a produção de ingredientes funcionais — sob gestão separada.
O entrave burocrático que pode adiar o início
Não há data para o “Dia 1” da JBS Viva. O fechamento depende de condições precedentes, sendo a principal a aprovação do Cade. A autarquia exige aval quando uma parte fatura R$ 750 milhões ou mais e a outra, R$ 75 milhões — patamares que ambas ultrapassam com folga.
Enquanto o sinal verde não vem, as duas empresas seguem operando de forma independente. O mercado deve monitorar prazos: processos no Cade costumam levar de seis a dezoito meses, a depender da complexidade da análise de concentração de mercado.
A sinergia que garante matéria-prima dos dois lados
A viabilidade financeira do empreendimento já nasce travada por contratos de longo prazo. Dois acordos de fornecimento foram desenhados para eliminar o risco de ociosidade:
- A JBS S.A. garante o suprimento de couro cru (matéria-prima base) para a JBS Viva;
- A JBS Viva retribui vendendo raspas e aparas (subprodutos do curtimento) para a JBS S.A. produzir gelatina e colágeno.
É uma integração vertical cirúrgica: a holding garante a entrada de insumo barato e a saída de resíduo valorizado, blindando a nova empresa de choques de oferta.
O que observar nos próximos meses
A criação da JBS Viva redesenha o tabuleiro global do couro, mas a execução é o verdadeiro teste. Investidores e concorrentes devem ficar atentos a três variáveis: o cronograma do Cade, a capacidade da nova gestão bicefala de entregar sinergias operacionais rápidas e o impacto da exclusão dos ativos internacionais na competitividade de custo da joint venture. O anúncio é histórico; a entrega, porém, ainda está por vir.
