O Ministério dos Transportes colocou no mercado sete trechos de ferrovias de curta extensão — as chamadas shortlines — com potencial para mover tanto cargas quanto pessoas. Pelo menos dois devem ir a leilão até dezembro, no regime de autorização, mais ágil que o modelo de concessão tradicional.
A novidade chega junto com a confirmação do primeiro certame do setor em cinco anos: o corredor Minas-Rio, marcado para 17 de dezembro. Juntos, os projetos desenham um novo mapa logístico para o país.
Os sete trechos que entram no radar dos investidores
O chamamento público abrange 809,1 quilômetros distribuídos por quatro regiões. Cada trecho foi desenhado para atender a uma vocação específica — do agronegócio ao turismo, passando pela integração urbana.
- Cruz Alta – Santo Ângelo (RS): 108 km | Soja, milho e fertilizantes
- Santo Ângelo – Santa Rosa (RS): 65 km | Integração de cooperativas
- Roncador Novo – Jardim Ingá (GO): 245 km | Potencial para porto seco
- General Carneiro – Miguel Burnier (MG): 92 km | Minério, siderurgia e turismo
- Aguaí – Bauxita (SP/MG): 75,4 km | Liga a malha paulista
- Campina Grande – Cabedelo (PB): 163,2 km | Corredor multimodal com integração urbana
- Brasília – Luziânia (DF/GO): 60,5 km | Transporte regional de passageiros
O governo ainda não definiu quais dois avançam para leilão este ano. Os vencedores terão até dois anos para apresentar projetos viáveis — se precisarem de aporte público, a pasta reabre o processo.
Minas-Rio: o teste de fogo de 733 km
O corredor Minas-Rio será o primeiro grande leilão ferroviário desde 2019. São 733 quilômetros hoje operados pela Ferrovia Centro-Atlântica (FCA), divididos em dois lotes: Iguatema (MG) a Barra Mansa (RJ), com ramal Varginha–Lavras, e Barra Mansa a Angra dos Reis (RJ).
A nova concessionária assume manutenção, recuperação e modernização, com prazo de dois anos para entregar o plano de recapacitação. CSN e MRS já estudam o projeto em conjunto, sinalizando apetite do mercado.
Por que a autorização muda o jogo
Instituída pelo Marco Legal de 2021, a autorização ferroviária elimina etapas burocráticas da concessão clássica. Empresas constroem e exploram a infraestrutura por conta própria, seguindo parâmetros legais — sem a necessidade de modelagem complexa de risco e retorno que travava certames anteriores.
Para o ministro George Santoro, a lógica é simples: “São dois anos que ele vai me dar um projeto que pode ser viável ou não. Se precisar de dinheiro público, eu reabro e levo a mercado.”
O que travou a agenda e o que vem por aí
Dos oito projetos previstos para 2026, só o Minas-Rio tem data marcada. O gargalo foi o Tribunal de Contas da União (TCU): discussões consumiram mais de oito meses. Santoro admite que Anel Ferroviário Sudeste (EF-118) e Malha Oeste terão editais publicados ainda em 2024, mas leilões ficam para 2025.
“O próximo governo vai ter um monte de leilões já com editais publicados ou em fase final. Demoraram muito as discussões no tribunal. Acho que agora está muito maduro.”
O que observar nos próximos meses
Três variáveis vão ditar o ritmo real dessa carteira: a definição dos dois shortlines que entram em leilão até dezembro, a resposta do mercado ao Minas-Rio (termômetro para projetos maiores) e a celeridade do TCU nos editais pendentes. Para quem acompanha infraestrutura, o sinal é claro: a janela de oportunidades ferroviárias reabriu — e dessa vez com passageiros no bilhete.
